DIÁRIO DA CAMPANHA DO PARAGUAY - F.P. da Silva Barbosa
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 DIÁRIO DA CAMPANHA DO PARAGUAY - F.P. da Silva Barbosa
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Tópico: DIÁRIO DA CAMPANHA DO PARAGUAY - F.P. da Silva Barbosa
Cesar
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 Postado em 29/06/2007 5:48:00 PM

Nota: transcrição do diário para garantir seu acesso permanente. Confiram também o site completo:

http://br.geocities.com/cvidalb2000/index.htm

DIÁRIO DA CAMPANHA DO PARAGUAY
QUEM FOI FRANCISCO PEREIRA DA SILVA BARBOSA


........Francisco Pereira da Silva Barbosa, nasceu no dia 2 de Abril de 1843, em um Domingo, ás 8 1/2 horas da noite, na Fazenda do “Caximbau”, povoação da Serrinha, Província do Rio de Janeiro. Ainda criança, mudei-me com meus Paes para a Fazenda da Ponte Alta, em Barra Mansa, margem esquerda do Rio Parahyba. No dia 25 de Julho de 1858, falleceu meu Pae, o Sr. Zeferino Pereira da Silva, Alferes da Guarda de Honra do Imperador D. Pedro 1º e filho do Guarda - Mór Francisco Pereira da Silva. Em Janeiro de 1860, recommendado por meu tio e padrinho, o Sr. Major Luis Rodrigues Soares, parti para o Rio de janeiro, empregando-me na casa commercial do Sr. João Henrique Urick até fins de 1864.
........Tendo, em Janeiro de 1865, o Governo publicado o Decreto, chamando Voluntarios para a Guerra do Paraguay, despedi-me da casa, seguindo para Barra Mansa e, na Fazenda da Ponte Alta, com minha presada Mãi D. Rosa Soares da Silva, minhas irmães Clara, Anna, Querida, meus irmãos Manoel, Diogo e Antonio e meu cunhado José Alves Pereira, ahi estive até o dia 15 de Fevereiro, e nesse dia despedi-me de todos, tendo dias antes me despedido de minha irmã Malvina, casada com o Sr. Bernardino Antonio de Carvalho, morador na Freguesia do Passa -Vinte, (freguesia) em Minas Geraes. Com meus irmãos Manoel e Diogo, segui a cavallo para a Ponte do Ferraz, em Volta Redonda, tomando uma barca no rio Parahyba. Descendo-o, reunimo-nos na Fazenda do Commendador José de Sousa Breves, em Pinheiros, á grande quantidade de Voluntarios que haviam descido de Barra Mansa e Quatis. Á tarde fui, com meus irmãos, á Fazenda de minha Tia e Madrinha D. Anna Rodrigues Soares, na “Boa Esperança”. Despedindo-me, regressamos no mesmo dia, pousando na Fazenda dos Pinheiros.
........No dia 16 embarcamos, saltando na Barra do Pirahy. Meus irmãos voltaram para a Fazenda e eu embarquei na E.F.D.Pedro 2º, chegando no mesmo dia ao Rio de Janeiro, aquartelando no Quartel do Campo de Sant`Anna.



INICIO DA CORREIRA MILITAR E DAS OPERAÇÕES MILITARES


........Assentei praça no 1º Corpo de Voluntarios da Patria, a 17 de Fevereiro de 1865, em conformidade como Decreto nº 3371, de 7 de Janeiro de 1865.
Fui incluido na 6ª Companhia sob o nº 4 e promovido a 18 ao posto de Forriel da mesma. Por aviso do Ministerio da Guerra de 23, foi-me concedido o direito de usar distinctivo de “Soldado Particular”.
........Embarquei com o Corpo para o Rio Grande do Sul a 5 de Março, desembarcando a 9 na Cidade do Rio Grande onde passei a sargentear a minha Companhia.
........Promovido a 2º Sargento da mesma a 12, embarquei com o Corpo para Porto Alegre a 24, tudo de Março.



BATISMO DE FOGO COM POUCO MAIS DE QUATRO MESES DE INCORPORADO


........Marchamos para S. Borja, tomando parte no Combate de 10 de Junho.
........O 1º Batalhão de Voluntarios da Patria, composto de soldados bisonhos, com pouco exercicio, em marcha para S. Borja, a uma legua de distancia, recebeu aviso que os Paraguayos estavam atravessando o rio Uruguay. Deixamos ahi as barracas e mochilas cheias de roupa, recebemos cartuxame e, a toda a pressa, marchamos para ver se ainda era possivel evitar a passagem. Infelismente chegamos tarde: parte da força já tinha atravessado e se collocado em linha de batalha, em proteção a passagem do restante da força do Cel. Estigarribia. Fomos recebidos a tiros de carabinas e a foquetes a cougréve que passavam rabeando por cima de nossas cabeças.



ARROJO DO TEN CEL MENNA BARRETO


O nosso Commandante Ten. Cel. João Manoel Menna Barreto, estendeo em linha de combate o Batalhão, mandando dar o signal de fogo. Este foi sustentado por mais de meia hora. Vendo, porem, que setecentos homens não poderiam resistir a mais de 6:000, recuou para uma praça, no centro da povoação, collocando piquetes em todas as ruas, a fim de dar tempo para as familias se retirarem. Reunindo depois o Batalhão seguio por uma rua, á nossa esquerda, em columna de marcha, com a musica tocando á frente e passando á vista dos inimigos que, embasbacados, não deram um tiro ! Contornando á direita da povoação retiramo-nos, até onde havíamos deixado as mochilas, e protegendo sempre as familias, seguio o Batalhão em direcção a Itaqui. Felismente, as jaboticabas dos inimigos e os foguetes só feriram levemente uns 2 ou tres soldados e o Cadete Xavier, que ficou em tratamento em casa de um francez que, com a mulher e a filha, não quiz retirar-se da povoação. A Artilharia que ainda estava á margem direita, quando chegamos, tambem nos mimoseou com alguns morangos que, graças a Deos, nenhum mal nos causaram.
........Á vista do inaudito arrojo do Cel. Menna Barreto, fazendo desfillar pela frente do inimigo um punhado de bravos, como quem marchava para uma revista, ao som de ruidoso dobrado, tiveram elles receio fosse alguma cilada para attrahil-os e serem envolvidos pela Divisão Canabarro, que julgavam estar occulta por traz da povoação. Deixaram-se ficar no mesmo logar por espaço de tres dias!!! Ao bravo Coronel Menna Barreto, deve o 1º Batalhão de Voluntarios da Patria a sua salvação, pela coragem e sangue frio que teve durante o ataque e pela brilhante retirada que executou. Só no 3º dia é que Estigarribia sabedor da nossa fraqueza, tratou de nos perseguir cruelmente. Mesmo perseguido, servio sempre o Batalhão de amparo á grande quantidade de familias que fugiam á approximação dos barbaros.
Paramos alguns dias em Alegrete, marchando depois para fazer a juncção com a Divisão Canabarro.
........Soffremos muito de S. Borja até á barranca do rio Itú. Muitas vezes mal arriavamos as mochilas, tornavamos a levantal-as e a marchar sem carnear. Outras vezes, depois de mortas as rezes, eramos avisados que o inimigo estava proximo. Mal tinhamos tempo de dividir a carne e carregavamos crua, até ao novo acampamento, em que, na maior parte, faltava a lenha, aproveitando nós o estrume secco dos animaes para assar a carne ou fazer o cozido, ficando tudo com um cheiro e sabor desagradaveis!
........Proximo a Itaqui fomos avisados que o exercito inimigo nos havia cortado a frente. Immediatamente levantamos acampamento, fazendo uma marcha horrivel durante toda a noite, e chegando ao rio Itú ao amanhecer.
........Atravessamos para a margem direita com agua pela cintura e levando a mochila á cabeça, segura com uma das mãos, apoiando a outra em um laço que atravessava o rio, tendo prezas as extremidades em arvores das barrancas. Alguns metros abaixo foi collocado um cordão de cavallerianos, que salvaram alguns que, escorregando nas pedras limosas e arrastados pela muita correnteza do rio, escapavam do laço. Fazia muito frio e a agua estava quasi gelada, mas com o inimigo a poucos passos atraz, o Commandante Major Carlos Betbzé de Oliveira Nery, que ha poucos dias havia substituído o Cel. Menna Barreto, obrigou-nos, quasi a patas de cavallo, a entrar n´ agua. No dia seguinte reunio-se o 1º de Voluntarios á salvadora Divisão Canabarro e, graças a Deos, não precisamos mais fazer fugas precipitadas; a nossa força era sufficiente para sermos respeitados pelos inimigos.
........Nessa mesma noite chegaram elles á alguns kilômetros de distancia do rio Itú, acampando na margem esquerda do mesmo.
........No acampamento de Ibivocay, pela primeira vez, fui prezo porque, como Sargenteante, levei para a formatura de parada um soldado sem a competente escovinha!!!!
........O Batalhão chegou á Villa de Alegrete todo roto e esfarrapado; foi preciso passar uma revista e o soldado que estava com sua bluza e calça em melhor estado, cedeu o capote ao que estava quasi nú; entraram muitos com roupa a paisana e capote por cima, por ter de emprestar á sua farda ao companheiro; muitos descalços e outros de alpercatas de couro crú, amarradas com correias tambem cruas.
........Por ordem do Commandante, ao chegarmos em S. Borja, deixamos as mochilas e capotes no campo. Quando voltamos, não houve tempo para escolher a que pertencia a cada um. Pegamos na que estava mais proxima e durante o pouco tempo que descansavamos, tratavamos de procurar a que nos pertencia; mas aquelle que melhorava, tratava de occultar, ficando por isso, a maior parte trocada e com muitas faltas. Era necessario para levar soldados para o serviço de guarnição, arrecadar dos que tinham os artigos precisos, e que eram entregues no dia seguinte, depois da guarda. Nestas condições, a falta da escovinha ficava justificada. Sendo, por tanto, uma prisão injusta, não me apresentei no dia seguinte cedo para ponto de pelotão, quando formava o Batalhão para exerciceo, e esta segunda falta, acarretou-me mais alguns dias de guarda da frente! Em Ibivocay, requeri baixa do posto de 2º Sargento, respondendo-me o Commandante Nery (verbalmente) “Aqui não é casa do Papai e da Mamãe, onde se faz vontade”, e assim fui obrigado a continuar com as divisas.
........Contra minha vontade, fui em Agosto promovido a 1º Sargento da Cia.


SITIO DE URUGUAIANA

........Assisti á rendição dos Paraguayos, em Uruguayana, a 18 de Setembro. Passei a fazer o serviço de Sargento Ajudante, a 27 de Setembro e a 28 atravessamos o rio Uruguay. Fui promovido a Sargento Ajudante a 2 de Outubro. Em Lagoa Braba, requeri baixa de posto. A 18 de Desembro, o Coronel Nery, reverteu-me a 1º Sargento da 6ª, dizendo-me que era para castigar-me por não querer eu possuir divisas. Fui prezo uma vez por ter respondido com “Altivez” (dado em detalhe) ao Major Fiscal, o muito digno Felix “Gato”, tudo no anno de 1865. Em 6 de Fevereiro de 1866, requeri e obtive baixa do posto de 1º Sargento. Estava eu com o requerimento pronpto, esperando occasião propicia, que se apresentou nesse dia. Depois de pequena altercação de palavras que tive com o Tenente Commandante da Companhia, entreguei-lhe o requerimento e elle, ainda chocado pela aspereza com que lhe respondi, deu despacho favoravel.
........Marchamos para Tallacorá onde fui prezo um dia, por faltar ao alarma das 4 horas da manhã. D´ahi marchamos para a barranca do rio Paraná.


MORTE DO TEN CEL VILAGRÃ CABRITA, HOJE PATRONO DA ARMA DE ENGENHARIA, EM REDENÇÃO.


........Fiz parte da guarnição que esteve na Ilha da Redempção, de 11 á 18 de Abril de 1866. As trincheiras ahi consistiam em profundas valas, amparadas por saccos de areia, que a todo o momento se esboroavam com os repetidos beijos da excellentissima “Vovó”, grande peça collocada no fórte Itapirú, na margem direita do rio. Esses beijos, quando não exphacelavam o corpo, serviam para decepar cabeças, braços ou pernas dos que, precisando apanhar agua no rio, atravessavam um espaço descoberto e elles aproveitavam para os seus certeiros tiros, e tambem dos muitos temerarios que abusavam, sahindo de dentro do fosso, não tendo o devido cuidado de deitar-se, quando a sentinella nossa dava o grito “vem ella!”.
Este grito era dado, quando a sentinella avistava a fumaça que sahia do canhão, na occasião do fogo. Suas balas, muitas vezes, batendo sobre os saccos de areia, deitavam tanta quantidade abaixo, que ficavamos quasi cobertos dentro do fôsso. Algumas sentinellas fiz, á noite, com agua ate os joelhos.
........No dia 18 atravessamos o rio Paraná e depois de alguns tiroteios pelo caminho, chegamos ao Passo da Patria, abandonado pelo inimigo, momentos antes, por ter sido acossado pelo invicto General Osorio, que foi dos primeiros a saltar em terra Paraguaya.

COMBATE DE ESTÊRO BELACO – VOLUNTÁRIO BARBOSA FOI FERIDO


Tomei parte no combate do Estêro Bellaco, a 2 de Maio, recebendo um beijo paraguayo que me carregou com um pedaço da orelha esquerda e uma jaboticaba no tornozelo do pé esquerdo que apenas deixou o signal, e que produziu mais dores do que o ferimento da orelha. Recusei-me sempre baixar ao Hospital de Corrientes, no Estado Argentino, para onde os medicos do Batalhão exigiam que fosse. No dia 4, porem, fui obrigado, com outros nas mesmas condiçõis, a baixar ao Hospital do Passo da Patria, á retaguarda do acampamento. Não tive até o dia 7 quem fizesse o curativo e passava unicamente a canja de arros, isto é, um tigela cheia d´ agua com uma ou duas colheradas de arros dentro. No dia 8 fui reconhecido pelo enfermeiro Balbino de Oliveira, soldado de minha Companhia que se achava empregado como enfermeiro do Hospital e que tratou immediatamente de fazer o primeiro curativo á orelha. Graças a Deos, desse dia em diante, fui curado diariamente e a minha bóia cedia a alguns mais infelizes do que eu e, da comida que me trazia o Balbino, ainda cedia a outros, ficando todos satisfeitos. Mas em contacto com aquella immundicie, apanhei grande quantidade de sarnas que me deixavam os braços em chagas. Sem obter o menór curativo, por não existir ahi remédios para ellas, e como da orelha estava quasi bom, pedi alta, obtendo-a no dia 21. A contuzão do pé sarou só com lavagem de agua e sal. A papeleta de alta, fornecida pelo Hospital e assignada pelo medico, dava “ter eu baixado ao Hospital com febres intermittentes”!!!.


BATALHA DE TUIUTI – O BRIGADEIRO SAMPAIO, HOJE PATRONO DA ARMA DE INFANTARIA, FOI MORTALMENTE FERIDO


........Tomei parte na batalha de 24 de Maio e nos combates de 16 e 18 de Junho, tudo de 1866.
........Consta terem tomado parte na batalha 32.700 homens, sendo brasileiros 22.700, argentinos 8.700, orientais 1.300. Perdemos 3.011 brasileiros, 606 argentinos e 296 uruguayos.
........Calcula-se a força inimiga em 36.250 homens, 13.000 morreram em combate, 500 ficaram prisioneiros, e perderam ainda bandeiras, canhões etc etc
........Durante o tempo que estive no Passo da Pátria fui prezo três vezes pelo Major “Gato”, (appelido do Major Fiscal). Baixei á enfermaria Central a 25 de Março de 1867, gravemente doente, com as febres intermittentes. Era de esperar soffrer muito, porque dez meses antes os nossos bons medicos me haviam prognosticado tal molestia, e, si esta baixa fosse após algum combate, provavelmente teria tido baixa por ferimento de bala.
........Deos permitta que não precise mais voltar ao Hospital porque serão capazes de darem entrada por ter alguma bala me decepado a cabeça! A 9 de Abril obtive alta, não me recordo com que nome os Srs. Esculapios classificaram minha molestia.
........Achando-se o Major Caetano da Costa Araújo e Mello no Commando do Batalhão, ordenou em Ordem do Dia que eu passasse a fazer serviço de Inferior Sargenteante da 6ª Companhia. Reclamei que não me achava com habilitações e que havia pedido por esse motivo, baixa de posto. A nada quis attender, e em 28 de Junho promoveu-me a 1º Sargento.
........A 20 de Julho marchamos para Tuyu-Cuê, a 30 acampamos na Meia-Tampa, lugar assim denominado pelos soldados por causa da escassez de generos que já há dias se fazia sentir, e ahi diminuíram ainda mais a ração, fornecendo apenas meia tampa de farinha para dois dias.
........A 16 de Setembro marchamos para S. Solano, assistindo ahi aos Combates de 3 e 21 de Outubro. Aqui tres vezes fui prezo pelo “Gato”: a 1ª porque se achava o Batalhão de guarnição e só algumas praças doentes que haviam ficado no acampamento, não tiveram tempo necessario para desarmar as barracas, antes de finalisar o toque de corneta, dado para esse fim. Não fui só a victima desse hemorroidário Major Fiscal, mais sete companheiros e collegas incorreram na mesma penna. A 2ª prizão, por que, sendo eu solto no dia seguinte, não me apresentei a S. Excia. para agradecer-lhe. E a 3ª pelo mesmo crime da 2ª prizão.
........A 30 marchamos para Potreiro-Ovelha, depois para Tagy aonde chegamos a 2 de Novembro, tomando parte no Combate ahi travado. Fui prezo pelo “Gato” no dia 13. No dia 14 marchamos, fazendo na madrugada do dia 15 o reconhecimento da Villa do Pillar, e combatendo até destroçar completamente a força inimiga ahi aquartelada, onde inutilizamos a Typographia do “Cabichuy” onde eram impressas as ordens de Lopes e muitas injurias contra nós. No mesmo dia regressamos, passando por Tagy e S. Solano, recebendo ahi as mochilas, que haviamos deixado, para com mais presteza marcharmos e surprehender o inimigo, chegando a Tuyu-Cuê a 19 de Novembro de 1867.
........Pelo Tenente Coronel Castro, actual Commandante do Batalhão, foi mandado proceder a Conselho de Investigação, em virtude da parte por mim apresentada contra o Tenente Comandante da Compania; sendo presidente do Conselho o Capitão João Domingos Ramos, foi julgada falsa a parte que o Tenente déra contra o soldado Virgilio; em vistas das provas que apresentei, foi o soldado solto, e a pedido do Commandante Castro, retirei a parte que tinha dado, ficando prisão e partes, sem effeito.
........A 17 de Janeiro de 1868, fizemos o reconhecimento das fortificações do Estabelecimento; a 18 regressamos para Tuyuty. Durante o tempo em que o Tenente commandou a Companhia prendeu-me, além das que aqui menciono, outras muitas, mas por falta de força moral do Tenente, não encontrava um inferior que cumprisse suas ordens, conduzindo-me para a Guarda da Frente. Assim acampamos em Tagy, eu e mais sete inferiores, cadetes e sargentos, tivemos ordem de seguir para Tuyu-Cuê e apresentarmos ao Quartel General do Commandante em Chefe do Exercito, General Duque de Caxias, sendo ahi examinados por uma Commissão de Officiaes que nos considerou habilitados para o posto de Alferes.


PROMOÇÃO A ALFERES


........Em apontamento do Corpo, de 19 e do Commando em Chefe de 5, tudo de Fevereiro de 1868, fui promovido a Alferes de Commissão. Já como Alferes, no dia 19, fiz parte do reconhecimento das trincheiras de Rojas.
........A 21 de Março assisti ao Combate de Sauce. Sauce está bem fortificada, tem um ante-fosso por onde corre um arroio, alimentado pelas aguas do banhado, represadas por uma eclusa, sobre a qual felizmente, foi sair a nossa picada; esse ante-fosso “tem 850 m de comprimento, 9 1/2 de largura media e 5 1/2 de profundidade; entre o ante-fosso e o fosso do entrincheiramento ha um espaço de terreno, com 850 m de comprimento e 120 de largura media; nesse espaço ha 24 ordens de bocas de lobo; alem dele está o fosso do entrincheiramento, com a profundidade 2 1/2 metros e tendo de largura na boca 2,30 e no fundo 2,20; alem desse fosso está o parapeito, com 4 1/2 m de largura na base, 2,20 no plano de fogo, 2,30 de largura acima do terrapleno, com uma banqueta de 9 m de altura e 1 metro de largura”.“Parte do General Argolo”
........Marchamos para Curupayty, aonde chegamos a 24 do mesmo mez.
........No dia 2 de Maio, em exercicio de espada com o Tenente Vianna, fui ferido em um dedo; obtendo, por isso, 6 dias de disfarce do serviço.
........Na promptidão de 6 de Julho, o Tenente Guimarães(portugues), mandou formar á noite a minha Companhia, muito antes da hora marcada que deveria eu de apresentar-me com ela para a promptidão. Apresentando-me na Companhia, mandei destroçal-a e só formando-a á hora da rendição, não attendendo eu os protestos do Tenente, que afinal me prendeo á ordem do Commandante, mas não me recolhendo preso. A tarde do dia 7 , deu em Detalhe do Corpo a prisão e no mesmo Detalhe a soltura.


BATALHA DE HUMAITÁ

........A 16 de Julho marchamos para o reconhecimento de Humaytá, continuando neste cerco até o dia 26, dia em que, entrando em Humaytá, o encontramos apenas com alguns paraguayos invalidos, tendo toda a força fugido para o Chaco, em S. Nicolau, para onde seguimos a 27. A 5 de Agosto assisti a rendição da força ahi refugiada. No dia 7 voltamos para Humaytá; no dia 19 marchamos, chegando ao Passo Jacaré á 28, tudo de Agosto. No dia 2 de Setembro marchamos para Tebiquary, chegando a 3 em S. Fernando onde encontramos grande quantidade cadaveres insepultos, das principaes personagens da Republica, mandadas fuzilar por Lopes, poucos dias antes; nesse numero estava o proprio cunhado.
........Marchamos a 8, chegando a 24 em Suruby-hy. Assisti ao reconhecimento de Pickcery, em Angustura, no dia 1 de Outubro.
........Em 30 de Setembro, o “Jararaca”, deu por escripto parte contra mim. No dia 7 de Outubro, o Major João Pinto Homem, actual Commandante do Batalhão, mandou-me chamar para censurar-me por ter faltado com o respeito ao Tenente Commandante da minha Companhia. Fiz ver ao Commandante que esse official faltava com a verdade, por isso não me sujeitava a uma censura, pedia que mandasse proceder a Conselho de Investigação. Pouco depois passou elle uma ordem de prisão, que me foi apresentada pelo Alferes Santa Rita, que me acompanhou até a guarda da Divisão onde encontrei onze Officiaes do 11º de Infantaria que, por capricho (dizem eles) do Commandante, foram para essa Guarda prezos. Estando um passaro engaiolado ha 5 dias e os dez restantes haviam chegado pouco antes de mim. A Guarda estava colocada no centro de uma espêssa matta, proxima á grande rio, lugar bastante saudavel onde passei seis dias bem disposto, divertindo-me com os outros encarcerados a pescar e a tomar banhos no rio. Mas como o que é bom não dura sempre, no dia 12 a tarde, apresentou-se o Santa Rita para reconduzir-me ao acampamento. Logo que chegamos tocou officiaes e perante elles reunidos, o Major Fiscal declarou ficar sem effeito a minha prizão pela parte do Tenente Comandante, dissertando por longo tempo sobre os deveres dos Officiaes Subalternos, e, despedindo estes, deixando só os Commandantes de Companhia, repreendeu o Tenente Comandante em presença dos seus collegas commandantes, por ter o Conselho de Investigação a que fui submetido (sem me ouvir, ausente e preso), julgado falsa a parte dada pelo Jararaca. Quando nos retiramos da barraca do Fiscal, por iniciativa do Alferes Macedo, formamos em ala, á entrada do abarracamento da Companhia e ahi nos sentamos á espera do Jararaca, e ao passar este reptil, erguemo-nos de espadas nuas, apresentando armas, e um côro horrível de marcha batida acompanhada de rataplans etc etc. O pobre diabo vociferava mais do que um representante da bosta d´África na praia do peixe do Rio de Janeiro, e á laia de D. Quixote, com a sua “Maria Tereza” em punho ameaçou Céus e terra, dando botes com a Maria Teresa, dos quaes tínhamos a precaução de evitar, e seguou sempre ladeado por nós, até a entrada de sua barraca onde occultou a vergonha porque acabara de passar. Assim lhe sirva esta de lição proveitosa.
........Passei a fazer serviço na 4ª Companhia. Com parte de doente, tive disfarce do serviço nos dias 20, 21 e 22, por causa de um dedo do pé arruinado.
........Embarcamos para o Chaco, em Santa Theresa, no dia 21, tudo de Novembro. No dia 5 de Dezembro , atravessamos o rio. Saltando a noite no Porto de Santo Antonio, na margem esquerda.


COMBATE NA PONTE DE ITORORÓ


........A 6 marchamos de madrugada, tendo por cafe o bello horrendo combate na Ponte de Itororó, onde perdemos grande quantidade de bravos, entre elles alguns officiaes de valor. Quando saltamos no dia 5, seguio uma força para reconhecer o terreno e consta que chegaram até essa ponte de onde regressaram e não perceberam o ponto estrategico para uma defeza, talvez devido á escuridão da noite, mas o inimigo que soube da nossa passagem, tratou immediatamente de guarnecel-a, de maneira que, ao chegarmos, no dia seguinte pela madrugada, fomos bem recebidos e por pouco que não destroçou a nossa força. Perdemos muita gente e alguns Chefes prestigiosos. O nosso Batalhão ficou na estrada, a descoberto, em columna, soffrendo todo o fogo do inimigo. Quando ouvimos o toque do 23º de “Avançar”, foi um allivio, ao menos íamos morrer combatendo e não como carneiros! Atravessamos a ponte debaixo de balas, cheia de cadaveres e feridos. O Batalhão, de reserva, e em columna, como já disse, soffrendo o fogo do inimigo, estava ancioso para avançar, quando recebeu a ordem, frêmio de contente, e o Commandante Pinto Homem, tirando o kepi, deu vivas ao General Duque de Caxias, que se achava á cavallo, a nossa direita, observando o combate na frente, de onde já tinha regressado e perdido um ou dois cavallos de sua montaria. O Batalhão todo, com verdadeiro enthusiasmo, correspondeu com alegria aos vivas ao Duque de Caxias , ao exercito brasileiro e alliados e avançou, estendendo em linha, á margem esquerda do rio. Após o 23º, seguiu o 54º que estendeu em linha á nossa esquerda. Felizmente, poucos momentos depois, o inimigo começou a recuar e nós a avançarmos até uma clareira, onde por duas vezes formamos em quadrado, a tempo de evitar sermos picados pela Cavallaria inimiga que, por uma picada na matta, vinha sair á nossa retarguada. Foi visto pelo Quartel General, quando entrava na picada e avisou-nos por toques de cornetas e, assim, evitou sermos trucidados. Ficamos victoriosos neste combate, como em todos que temos tomado parte; Ahi nos conservamos toda noite. Ás 8 horas da noite, achando-me de ronda á linha de frente, coloquei o meu poncho emmalado com alguma roupa dentro, em uma arvore proxima; á meia noite, por causa da chuva, é que lembrando-me do poncho, fui procural-o, não o encontrando, talvez tivesse desertado para o inimigo. De manhã, todo molhado, vesti roupa do Albino enquanto ele enxugava em uma fogueira, a molhada. No dia 7, o Albino comprou a um soldado de cavallaria, por dez bolivianos, Rs 8:000, um velho poncho que teve de lavar para desapparecerem as manchas de sangue de que estava cheio. Provavelmente pertenceu a algum cadaver, dos muitos que a cavallaria estava retirando do fundo do riacho, para serem enterrados.
Passamos o dia 7 abrindo vallas e arrastando cadaveres para dentro dellas. No dia 8 continuamos no mesmo serviço (só o 23º de Voluntarios). Nesse dia, por falta de mantimento, soffremos alguma fome. Felismente os soldados encontraram proximo uma boa roça de mandioca (aipim) e milho verde que se incumbiram de effectuar a mudança de quase toda ella para o acampamento e assim ficamos suppridos de alimento por muitos dias. Comprei quatro cigarros de fumo muito ordinaio, dos taes denominados fuzileiros, a 800rs cada um. No dia 9 marchamos á 1 1/2 hora da madrugada, alcançando os dois Corpos de Exercito, ás 8 horas da manhã, encorporamo-nos á nossa Brigada. Ás 10 avançamos e ás 2 horas tomamos posição em frente ao inimigo. No dia 10, sempre chuvoso, tivemos apenas alguns tiroteios.

BATALHA DO AVAHY


........No dia 11, ás 8 horas da manhã avançamos, travando-se a grande Batalha de Avahy. Logo no comêço a chuva muito damno nos causou, felismente tivemos ordem de deixar os capotes que estavam muito encharcados d`agua, ao subir a primeira cuxia (morro). Até proximo a Villeta, combatemos debaixo de muita agua e por castigo acampamos ao ar livre, sem barracas e sem capotes, mas Deos se compadeceu de nós e dos desgraçados que foram feridos durante o combate; fez cessar a chuva, logo após a batalha e pudemos assim dormir em macias camas de ramos verdes e ainda molhados, cortados em uma das chacaras vizinhas. No dia 12 foram os Batalhões a procura dos capotes. Os primeiros que chegaram tiveram tempo de escolher os melhores, os ultimos ficaram bem prejudicados. Eu melhorei, trocando o meu “Itororó” por outro muito melhor, por habilidade do Albino. No dia 14 recebemos as nossas mochilas e barracas que haviam ficado, quando atravessamos o rio, em Santa Tereza.


ATAQUE A LOMAS-VALENTINAS


........No dia 21 marchamos para Lomas-Valentinas, á 1 hora da madrugada. Pouco depois do meio dia, cercamos as trincheiras, parecendo-nos estarem abandonadas. Fomos apertando o cêrco e sempre prevenidos, quando ás 2 horas fomos metralhados por forte chuveiro de balas jogadas pela Artilharia, que se achava mascarada. Não nos causou surpreza, contavamos com ella. Combatendo com o Balhão em um dos Carreiros, fui victima de um pedaço de metralha que, fazendo saltar os miólos do soldado que estava á minha direita, bateu-me no ombro, apenas sentindo a dôr da pancada fórte e nada mais, sendo nesse momento baptisado com o sangue e miólos desse inditoso companheiro. Meia hora depois não podia suspender a espada, passei-a para a esquerda, mas custando-me a mover o braço que começava a inchar, ás 5 1/2 apresentei-me ao Commandante que me mandou retirar para o Hospital de Sangue, a retarguada. Ahi foi o ferimento banhado com agua e sal, (julgo eu).
........No dia 22 apresentei-me cedo por terem desapparecido as dores. Combati nesse dia, nos dias 25 e 27, dias estes que foram considerados de combates, mas verdadeiramente combatemos desde as 2 horas do dia 21 até a tarde de 27, sem parar, dia e noite, terminando nesse ultimo dia com a precipitada fuga do Dictador Francisco Solano Lopes que se achava á mesa quando recebeu o aviso que havíamos galgado a ultima trincheira.
........Abandonou tudo e fugiu, deixando uma meza repleta de bons doces e vinhos que a soldadesca aproveitou. Pena foi só chegarmos á sobremeza. No acampamento foi encontrada alguma aguardente, fumo e surrões de melado.


RENDIÇÃO DE ANGUSTURA


........Tomei parte na rendição dos Paraguayos, em Angustura, no dia 30. Marchamos para Villeta á 31, tudo de Dezembro de 1868.
........Á 3 de Janeiro de 1869 marchamos, chegando a Assumpção, Capital da Republica, no dia 5. Fui preso á 7, por faltar ao alarma; nesse dia marchamos para Luque. Á 9 fui novamente preso pelo mesmo motivo e solto das prisões de 7 e 9. O braço até este dia esteve mais ou menos dolorido, a parte negra desappareceu, ficando unicamente um amarello arroxeado, mas sem dôr. Graças á Deos estou bom da contusão. No dia marchamos para Juquery. Pouco depois de nossa chegada, apresentaram-se os paraguayos em uns vagons da Estrada de Ferro, na frente da machina. Saltaram em terra, estenderam em linha e mimosearam-nos com algumas “jaboticabas” e alguns “melões” jogados com uma pequena peça, á frente do vagon-prancha. Elles não contavam com este encontro, mas animados por não verem quase ninguem, saltaram em terra e começaram o tiroteio com as sentinellas dos sarilhos e alguns que ainda estavam no acampamento; mas ao toque de reunir, em um momento apresentou-se o Batalhão formado e prompto para o combate que nos offereciam. Tiroteando algum tempo com os inimigos, que cautelosos reuniram-se e subindo para as pranchas, regressaram a toda velocidade, dando-nos apenas o prejuízo da ponta de um dedo de um soldado, cortado á bala.. Á 7 reverti ao serviço de minha Companhia. Dia 14 fui preso por faltar ao alarma, e solto a 15, tudo de Março. Á 7 de Abril regressamos para Luque.
Á noite, os larapios entraram no caramanchão onde eu e o Tenente Antonio Feliciano Pimenta dormiamos e carregaram com a minha velha “Maria Francisca”. Felismente deixaram o revolver, só precisavam da espada, pois foi o unico objecto roubado. Á 17 de Março voltamos para Assumpção. Ás 5 horas da tarde embarcamos no “Silvado”, desembarcando no Porto do Rosario á 19; ás 4 horas da tarde embarcamos no “Colombo”, saltando no dia 20, á tarde, no Potreiro Iponã.
........Á 22 marchamos para Villa de S. Pedro, á 23 para a margem do rio Jejuy, á 24 voltamos para dentro da Villa, á 26 mudamos para um kilometro distante da povoação, á 28 marchamos com direcção á povoação e, passando pelo centro da Villa, fomos acampar em Sargento-Lombas. Quando estavamos proximos á Villa de S. Pedro, appareceram mais de cinco mil mulheres e crianças que estavam refugiadas nas mattas, para livrarem-se dos castigos e da mórte que Lopes teria dado a ellas si o acompanhassem, como ordenou a um Tenente Barbosa que andou com destacamento á caça das refugiadas, levando muitas.


COMBATE DE TUPIUM


........No dia 30, depois de pequena marcha, atacamos o inimigo no Potreiro Tupium, onde pereceram quase todos á bala e maior parte afogados no rio, onde se atiraram na esperança de galgarem a margem esquerda. Não contavam com a fórte correntesa do rio e das nossas balas, por isso, foi a maior parte servir de bom manjar ás gordas e saborosas piranhas. Poucos prisioneiros fizemos porque elles, cantando atravessaram o pequeno rio, atiravam-se á agua para não serem prisioneiros. O combate foi ferido em um campo plano com pequeno mattagal, quasi coberto d´agua e combatemos em quasi todo elle, com agua acima dos joêlhos. Á 31 de Maio voltamos para Sargento-Lombas, onde saboreamos a gorda carne do gado tomado do inimigo, e assim nos livramos da fome que já se começava a sentir pela escassez da carne e farinha. No dia 3 de Junho tive ordem de seguir para S. Pedro ( Porto de ), levando o meu fachineiro Albino .
Chegando a 4, tomei conta do equipamento do Corpo que ahi tinha ficado. No dia 9 chegou o Batalhão; a 11 mudamos para dentro da Villa; á 13 marchamos, chegando á noite no Potreiro Iponã. De S. Pedro á Iponã é uma continuidade de banhados que parecem ser um só. Com a nossa passagem ficaram em pura lama que nesse estado, era sorvida por soldados sequiósos d´agua. No dia 18 o Esquadrão de Cavallaria que nos acompanhou nesta jornada, arrebanhou grande quantidade de gado e alguns cavallos, que infelizmente não nos prestavam benefício porque tendo de embarcar e não podendo conduzil-os, fomos obrigados a inutilizal-os, e assim, no dia 22, immolaram-se para mais de quinhentas rezes, aproveitando os soldados só as línguas. No dia 23, os míseros cavallos que bons e relevantes serviços nos prestaram, tiveram a paga, sendo puchados para dentro do caudaloso rio e barbaramente sangrados, deixavam-se seguir pela correntesa, logo desapparecendo. Como a maior parte dos nossos bons reúnos se achava velha e magra, foram elles trocados pelos gordos paraguayos e obtendo os nossos, a caridade barbara do punhal dentro do rio.
........Á 23 embarcamos, chegando a Assumpção á 24, tudo de Junho de 1869.
........Á 4 de Julho marchamos, pousando em Luque, á 5 em Areguá, á 6 em Passo das Canoas, acampando em Taquaral, tudo em Julho de 1869. Á 2 de Agosto marchamos, pernoitando em Pirajú, á 3 em Paraguary, á 4 marchamos, alcançando os inimigos fortificados no reducto Sapucahy. Para evitar a carnificina com o ataque ás trincheiras, o 23º Corpo de Voluntarios teve ordem de abrir picada á esquerda da matta, para cahir-lhes pela retaguarda, mas pressentindo a nossa marcha pela matta, fugiram, deixando-nos algumas peças de artilharia, das ultimas fundidas por elles. Perseguidos de perto, entrincheiraram-se nas mattas de Valenzuelas. Fazendo nós alto, pernoitamos á entrada da matta, á 6 marchamos, atacando as trincheiras ás 10 horas e tomando-as, depois de um bom e forte ataque. Acampamos um pouco adiante. A 7 marchamos, passando em Villa de Valenzuela. No dia 8 marchamos, até o dia 10, que cercamos o Forte de Perbebuy.
........De Sapucahy em diante nos tocou a vanguarda do exercito, mas como não pertenciamos á Divisão da frente, não nos forneceram a magra e parca carne, alegando pertencermos ao exercito da retaguarda, por onde deveriamos ser fornecidos; esta, por sua vez, dizia que estando nós em serviço da vanguarda, deixara de pedir rações para o nosso Batalhão. Com as instantes reclamações do Quartel Mestre, obtivemos alguma carne muito magra. Ficavamos sempre com fome por não fornecerem a carne necessaria para consumo do Batalhão, continuando isso até ás trincheiras de Peribebuy. Felismente ao chegarmos, avistamos distante uma carrocinha de aventureiros que acompanhava o exercito e assim descansamos, digo, acampamos, mandei o fachineiro comprar algum combustível que nos
“lubrificasse” os estomagos; trouxe elle: uma garrafa de aguardente, com muita pimenta do reino para ficar forte, por cinco mil reis, uma libra de assucar mascavo bruto de 3ª, por cinco mil reis e cinco bolachas, das de bórdo, a dois mil reis cada uma. De posse dessas preciósas iguarias, reuni-me ao Pimenta e quando pretendiamos saboreal-as, a nossa barraca foi invadida por dois collegas imprevidentes que não souberam guardar as loiras, e attrahidos com o cheiro da cachaça, quasi nos deixaram a sacco. Felismente chegou para todos e cinco pessoas comeram e beberam fartamente, ficando todos satisfeitos e pedindo a Deos outro jantar igual para o dia seguinte. No seguinte dia obtivemos ainda melhor, no morro fronteiro ás trincheiras, e em nossa retaguarda, foi visto um grande mandiocal e apesar da vigilância para não deixarem o acampamento, muitos soldados, inclusive o meu fachineiro, la foram, regressando carregados, mesmo soffrendo as balas dos inimigos, que felismente, eram pessimos atiradores, não acertaram em nenhum. Tivemos uma lauta ceia com o restante da aguardente que sobrara do jantar. Á meia noite de 10 marchou o Batalhão, chegando ás 6 1/2 horas da manhã do dia 11 em Barreiro Grande, onde constava que os inimigos pretendiam atacar a cavallaria que se achava nas proximidades desse logar. Mas com a approximação dos destemidos Voluntarios, trataram de dar ás de Vula-Diago.


COMBATE DE PERIBEBUY


........Ás 3 horas da tarde regressamos, chegando ás 8 horas da noite em Peribebuy; acampamos no mesmo lugar onde estiveramos. No dia 12 de madrugada e depois de fortissimo canhoneiro de artilharia, avançamos para as trincheiras, tomando Peribebuy de assalto. Tivemos muitos feridos e poucos mortos, devido á rapidez com que avançamos e tambem porque os inimigos estavam mal armados, espingardas de pederneiras, e para prova de que as armas não os favoreciam, é que os ferimentos em sua maioria, foram produzidos por garrafas, pedras e armas brancas. Serviram-se até da areia, jogando-a em grande quantidade que nos entrava pela bocca, naris, e quaie nos cegando. Em minha Companhia um soldado, camarada do Commandante da Companhia, falleceu de uma pedrada que recebeu na cabeça. Eu me achava no parapeito da trincheira para cobrir, com outros collegas, do lado inimigo e recebi uma boa pedrada no ombro direito, no mesmo logar da metralha, caindo no fundo da trincheira, onde fiquei por alguns momentos atordoado, devido á pancada e á quéda. Ao cahir, a minha espada presa ao pulso pelo fiél, quiz esperimentar a barriga do Alferes Olympio, que ainda no fundo da valla, forcejava para subir; encontrando a pele dura, apenas varou a blusa e a camisa, arranhando um pouco a pelle. Subi a trincheira para o nosso lado e com uma carabina que ahi encontrei sem dono, continuei a combater, fasendo fogo. Quase todos os nossos officiaes e soldados do nosso Batalhão, tiveram as mãos e o rosto feridos por pedras. Os paraguayos combateram valentemente, mas os briósos Voluntarios, muito mais.
........Encontramos grande quantidade de ouro, prata, cobre e papel; servindo para muitos officiaies e praças de pret que, despresando as ordens existentes, deram-se ao saque, em quanto seus companheiros combatiam. Eu e meu camarada fomos tão inhabeis, (mas cumpridores de nossos deveres) que nem um boliviano arranjamos; não obstante, passarmos em frente á casa onde os saqueadores entravam, abandonando o combate, e sahiam com saquinhos de ouro, prata e muitos logrados com saquinhos de cobre que, visto ás ligeiras, pareciam libras. Encontramos ahi todo o dinheiro papel que Carneiro de Campos conduzia para Matto- Grosso, quando foi prisioneiro, sem existir declaração de guerra.
........Depois do combate fui com tres soldados, procurar no campo, o meu desventurado companheiro e amigo, o Alferes Antonio F. Pimenta, encontrando-o ja no hospital de sangue, por ter sido ferido por bala que acertou no tornozelo quebrando-o quase todo, mas não era grave.
........O meu fachineiro, reunindo as economias do rancho, com mais algumas louras que eu guardava para os extraordinarios, pôde obter oito libras que trocou com um dos saqueadores por Rs. 160:000 em patacões. Elles tinham em tanta quantidade que, para poderem carregar trocavam por libras, dando o dobro em prata, para alivial-os do pezo.
........Á 13 marchamos para Caácupê; á 15, depois de curta marcha, retrocedemos para Peribebuy e Barreiro-Grande onde encontramos uma partida de inimigos, que tivemos de desalojar; depois de breve tiroteio levamos elles até a mata de Coroguatahy onde estava o grosso do exercito fortificado. O nosso exercito acampou á entrada da matta. No dia 18 avançamos para dentro da matta de Canguipurú e atacamos as trincheiras e, depois de um aguerrido combate, assenhoriamo-nos d`ella, fazendo grande quantidade de prisioneiros, tendo a maior parte atravessado o rio que fica em frente á Villa de Caraguatahy, pouco alem da matta e de onde avistamos dois navios de guerra paraguayos dos que pouco antes tinham atacado fogo e se achavam em chamas, por não poderem elles navegar, devido á baixa do rio. Dois dias antes, por ahi fugio o Dictador Lopes com seu numeroso Estado-Maior, deixando ordem de incendiarem os vapores, logo que nos approximassemos da povoação. Pela primeira vez tive a honra de ser o porta- bandeira do Batalhão, durante o combate dentro da matta. Graças a Deos só soffri alguns arranhões de espinhos e, muito cançado, não me juntei aos collegas que foram á linda Villa, muito proximo do acampamento, render homenagem ás bellas Caraguatienses que escaparam da furia de Lopes. Hoje, 20, livre dos arranhões e da fadiga das marchas, fui passear na Villa, encontrando muitas famílias da alta aristocracia de Assumpção. Neste numero estava a linda irmã de Rivarola, que actualmente e provisoriamente foi pelos aliados, collocado na Presidencia da Republica. Chorava de alegria quando nos ouvia dizer que seu irmão era o Presidente do Paraguay.
........Á 23 regressamos a Peribebuy para o recebimento do equipamento que, a bem do combate, ahi havia ficado. Á 26 voltamos, chegando ás onze horas da noite, sem ter comido durante o dia, e no anterior muito pouco, e nem aqui encontramos a nossa parca ração, por ter a Divisão se esquecido (!!!) que um dos Batalhões tinha na vespera sahido a serviço. Felismente o Albino obteve, por bom dinheiro, um pedaço de pão velho e negro e outro de salsichão e um pouco de carne fumada, e assim tive nesse dia um opíparo jantar (e sem amigos). Maior parte de meus collegas nem para a ceia obtiveram, só recebendo carne e farinha no dia seguinte, e assim passou o Batalhão dois dias cruéis. No dia 1º de Setembro marcharam o 23º e o 3º de linha, passando por Barreiro Grande e Valenzuela; á 5 acampamos na Villa de Ibetemy. Á noite, os larapios fizeram-me o favor de me alliviar do peso da espada e talim; é a 2ª vez que fico desarmado em frente ao inimigo! da 1ª vez foi facil obter outra, comprando-a no commercio, mas hoje era difficil si o Major Fiscal José Claro Ferreira da Silva, não possuísse uma velhinha, que me emprestou. Estes batalhões receberam, quando partiram; carne secca e farinha para 3 dias, a maior parte, porém, antes do 3º dia estavam com os bornais vazios e começaram a cata de ervas; no 4º dia quase foi geral, só as ervas que encontravamos. Felismente no 5º dia encontramos, alem de boa verdura, algum palmito e meia ração de carne, mas tão magra, que amargava ao mastigar-se, não se podendo tragal-a, ainda mesmo com fome! Era horrorosa esta situação, e assim continuamos até o dia 11 em que marchamos, atravessando o rio Tabiquary a 12; descansamos em Itapê onde fizemos provimento de novas ervas que muito nos tem valido.


A COMITIVA CIVIL


........Á 13 entramos em Villa-Rica, acompanhados de centenas de mulheres e crianças que se apresentaram assim partimos de Itapê. Eram familias paraguayas que viviam nas mattas, occultas para evitar seguirem o exercito paraguayo. Nessas immediações andava uma escolta comandada por um Tenente que por ordem do El-Supremo as intimava para se reunirem ao tyramno, tendo antes extorquido tudo quanto ellas possuíam de algum valor, inclusive roupa. Achavam-se mal vestidas, porem, com suas roupas de algodão clara bem lavada. A maior parte apenas tinha uma manta ou tanga de algodão que enrolavam dos ombros á cintura e passando uma ponta por entre as pernas prendiam á frente; algumas eram tão pequenas que mal davam para enrolarem na cintura. Em um momento de descanso do Batalhão, maior parte dellas ou quasi todas que se achavam nuas foram vestidas; umas com palitós, outras com camisa, algumas de calça, grande parte completamente fardadas, só faltando o armamento e correame para serem perfeitos soldados. Com a transformação de mulheres para soldados, o nosso Batalhão augmentou consideravelmente; muitos dos transformados metiam-se na fileira e marchavam juntos com os verdadeiros soldados. Na distancia de umas mil braças da Villa, fomos recebidos por uma commissão composta de um velhinho, commandando alguns meninos rufando tambores, ferrinhos e flautins, acompanhados de mais de seis mil mulheres e crianças e alguns velhos invalidos. Ao approximar-se a commissão, o Batalhão fez alto para recebel-as, seguindo depois de “bandeiras desfraldadas“, atravessamos a povoação e acampando do lado opposto, enchendo-se as casas com as familias a quem ellas pertenciam. Com a nossa chegada evaporou-se a pequena força paraguaya, deixando-nos senhores de uma bella povoação e cercados das graciosas attenções das mais belas filhas do Paiz que são as lindas “Guarenhas”, claras e moreninhas, estas só falando o guarany e aquellas manejando perfeitamente a sua lingua natal e o hespanhol; são bem educadas, instruidas, civilizadas e muito amaveis, assim arranhavamos um pouco o hespanhol e mesmo algumas palavras de guarany. Todo este povo vivia escondido nas mattas; as que eram caçadas foram obrigadas a acompanharem os exercitos paraguayos e as que recusavam, depois de martyrisadas eram fuziladas. Deram graças a Deos pela nossa chegada. Ha nove dias que estamos neste Paraíso, tendo já esquecido todos os soffrimentos passados, mas infelismente isso tem de acabar e amanhã ou depois teremos de continuar com a nossa nobre missão. Á 24 partimos de Villa Rica, deixando inconsolaveis as intelligentes e bellas Guarenhas. Em cumprimento do dever seguiremos, até encontrar uma bala ou o seio da Familia adorada. Passamos por Tehiquary-Mirim, chegando a 28 em Caáguassú, já com muita falta de viveres. Alguns officiaeis, cadetes e soldados, depois que acampamos, dirigiram-se d`aquí a uma legua de distancia á moradia de um velho casal paraguayo, possuidor de um bom quartel de cannas e mandiocas. Compraram raspa (rodelas de mandioca seccas ao sol) de mandioca e mellado, dando elles as mandiocas e as cannas que os soldados, em grandes feixes, trouxeram para o acampamento.


A ODISSÉIA DE SÃO JOAQUIM


........No dia 1º de Outubro marchamos, chegando a 3 na Villa de S. Joaquim. Proximo á povoação e á margem esquerda da estrada, existem umas sessentas casinhas cobertas de sapê e já abandonadas e quase todas estragadas. Na povoação só encontramos um velhinho, unico ser humano ahi existente; nos contou a origem das taes casinhas, em que talvez não coubesse um homem em pé. É uma triste e horrorosa historia que nos contou o velhinho. Ei-la: Essas casinholas foram mandadas fazer pelo Governador da Villa onde acampamos e feitas pelos proprios moradores que soffriam rigorosos castigos, mesmo quando estavam doentes e não podiam trabalhar. Quasi todas pertenciam ás principaes familias da Republica e que Lopes, para vingar-se de seus paes, maridos, filhos ou irmãos, desterravam-nas para esse miseravel lugar, d`onde nunca poderam mais sahir, e, sem recursos, foram todas perecendo á fome porque Lopes prohibia levar-lhes alimento; dizia que ellas plantassem para comer, e as que fugiam eram prezas e regressavam para os seus casebres debaixo de pancadas. Assim serviram todas, inclusiveis seus filhinhos, de pasto ás aves de rapina !!! porque nem ferramenta tinham para abrir uma cóva. É tão miseravel este logar que nem ervas encontramos; existe, porem, grande quantidade de jeribás que nos salvaram a vida, não acontecendo o mesmo ás desgraçadas dos cazebres por não possuirem com o que cortal-os. Diariamente são escalados 20 a 50 homens para cortar as palmeiras, tirando-se os palmitos que são conduzidos para o acampamento e ahi distribuidos ás Companhias. Em poucos dias acabamos com os palmitos; estamos agora aproveitando o tronco da palmeira.


A FOME


........Cortados em pedaços de 2 metros, racha-se em 4 partes, entregando-se uma a cada soldado que o aproveita, batendo bem com um pedaço de páo sobre outro mais grosso, até extrahir toda a massa branca do jeribá, que nos serve de farinha depois de secca ao fogo, e o caldo dá um saboroso mingáo que comemos com delicia, visto nada mais haver para comer e não desejavamos acompanhar as moradoras das cazinhas e, para não acompanhal-as, adiccionamos aos productos da palmeira: fachos de ervas, que, fermentadas 2 ou3 vezes, pondo-se fóra as primeiras aguas, digerimos com a saborosa farinha e algum pedaço de velho e esturrado couro de cangalha e pedaços de couro crú secco que estão amarrados ás ripas nas paredes das casas, que são tiradas para o nosso repasto. Para toda a Divisão apenas carneam quatro rezes; as pobres victimas ainda estão correndo prezas ao laço, e ja os caiphás estão de posse de um pedaço de cauda, do beiço, ou de outro qualquer onde a afiada faca possa alcançar. Do proprio couro, quando os 4 esfoladores concluem o serviço, só resta o pedaço que está seguro pelo corpo do animal, por terem os famintos soldados tirado aos pedaços á proporção que vão esfolando. Essas rezes são divididas pelos Corpos, e estes distribuem ás praças e officiaes; Assisti a muitas distribuições e vi distribuir a muitos soldados, metade de uma costelleta e pedaços de carne que poderiamos fechal-os em uma das mãos. Amarga como fél, de tão magra que está, mas mesmo assim desapparece com a farinha de palmitos e com os pedaços de cangalha velha !
Em 16 dias que nos conservaram aqui, recebemos o seguinte: quatro vezes farinha de mandioca, sal, milho secco, sendo de milho um punhado, e de sal uma colher de sopa para 8 dias ! O milho era o destinado para os animaes de artilharia, mas como para elles ainda encontravam algum capim, o General Carlos Resior extorquia-lhes este delicioso (até para nós, nesta occasião, era delicioso) nutritivo, mandando distribuil-o ao exercito, que o aproveitava quasi todo crú para evitar o roubo ou se queimar de torral-o.
........Consta que muitos soldados voltaram á Caaguassú, roubando dos pobres velhos tudo quanto podiam carregar para comer, levando para o acampamento em S. Joaquim. Alguns cachorros que acompanhavam o Batalhão foram immolados, inclusive um da 2ª Companhia que se dava pelo nome de 29, por ter no Rio Grande do Sul, apparecido nessa Companhia, no mesmo dia em que desertava o soldado numero 29. Era muito estimado pelos soldados e principalmente pelo soldado Sephen, que chegava a dividir a sua ração como cachorrinho. Nestes 17 dias falleceram alguns soldados. Os medicos (dizem), attestaram “á fome!!!”.
Na noite de 15 desertaram 35 praças, que reunidas ás de outros dias, eleva-se a mais de cem! Só deste Batalhão.


DESERÇÕES CAUSADAS PELA FOME


........Muitos dos que em frente do inimigo nunca torceram o rosto, viram-se agora forçados pela fome a abandonar seus companheiros de lucta e fugir de uma morte quase cérta e sem gloria, porque não tinhamos inimigos a combater nas proximidades do nosso acampamento, por estarem muito distantes. Não fiz parte deste numero porque ha muito tempo andava descalço, ficando com os pés em chagas vivas, não podendo quasi andar, não obtendo um animal para ir até Villa Rica apresentar-me com os collegas, ao General Portilho. Dou graças a Deos por me haver impossibilitado de andar, porque por mais razões que tenhamos, é sempre humilhante para o official a deserção. Não consideravamos como deserção porque dirigia-se a outro ponto onde nos apresentaríamos ao General. Não deixava por isso, de ser deserção e eu ia fazer essa asneira só por colleguismo. O meu fachineiro nunca me deixou um dia sem comer, embora pouco, mas sempre trazia um pedaço de orelha, beiço, couro ou qualquer outra iguaria que em sua agilidade pudesse passar a mão e a faca, para vir preparar e que depois consumiamos ás occultas, por causa dos amigos. Durante o dia e mesmo á noite não deixo de apreciar um cigarrinho preparado ás occultas, de um dedo de fumo de rolo, que comprei de um gringo por um patacão. È necessario todo o cuidado para que os collegas não vejam e assim mesmo sou muitas vezes pilhado em flagrante pelo cheiro do fumo, não tendo recurso sinão deixal-os chupar algumas fumaças, mas, por cautella, conservando eu sempre o cigarro entre os dedos, para evitar ficar sem elle.
Não havendo serviço, nem o que fazer, levam os soldados todo a dia e parte da noite ás pancadas com os macetes de pau, preparando a saborosa farinha e o delicioso mingau. O acampamento assemelha-se a uma grande lagoa, cheia de sapos e rães a coaxarem em todos os tons.
Graças a Deos estamos em preparativos de viagem e já estou muito melhor dos pés. Marchamos a 19; parece que alli nos conservamos um seculo. Nestes dias de marcha, passamos a couro de velhas cangalhas, encontradas pelas margens da estrada, de lascas de couro com que amarravam as ripas dos desmoronados casebres que encontramos, algumas ervas e laranjas azedas, que comiamos assadas ou mesmo cruas, com todo o bagaço para render mais, e assim obtivemos deliciosos jantares. Felismente só soffri fome nos primeiros dias de marcha. Fomos protegidos pela Divina Providencia, fazendo com que encontrassemos grandes surrões de mellado e enormes pedras de sal, escondidos em uma matta. No dia 23 acampamos ao meio dia e até alta noite o meu fachineiro não appareceu. Contava já que tivesse sido morto por alguns paraguayos desgarrados, quando ás duas horas da madrugada acordou-me elle muito devagarzinho, para jantar frango assado, lombo de porco, raspa etc etc. Comi como um abade, sendo o restante cuidadosamente guardado para ser carregado de manhã por um jumento que eu possuo para condução das barracas e mochilas. Toda esta provisão foi encontrada pelo Albino e mais dois ou 3 camaradas que sahiram a procura de alimento. Em uma estrada á esquerda do acampamento avistaram, muito longe, uma casa para onde se dirigiram. Encontrando-a occupada por um velho paraguayo e algumas mulheres, deixaram uma sentinela ao typo e os tres, allumiados pelas mulheres, passaram revista em toda a casa, apoderando-se de raspas de mandioca, sal, mellado e alguns temperos, degollaram algumas gallinhas, pellaram um bom capadinho e ajudados por uma das mulheres, tudo prepararam, devorando elles os miúdos e a cabeça, de parceria com as mulheres, que ainda ficaram com muita sobra ! Depois despediram-se das paraguayas, chegando carregados ás 2 horas da noite. Depois de longo tempo de abstinencia de boa comida, com que prazer não fui aos assados, que estavam saborosos ! Disse-me o camarada que encontraram algum dinheiro e jóias na casa, mas que em nada tocaram, só procuraram o que comer.
Marchamos a 24, acampando em Santany (S. Estanisláo) onde encontramos algumas roças de feijão, começando a abrir as flores.
Si ahi cahissem os gafanhotos, não causariam tantos estragos quanto os nossos soldados o fizeram, arrancando quasi todo o feijoal, ficando os míseros donos (que não appareceram) privados desse alimento. Graças a Deos, eu e meu camarada, não tocamos no feijoal. Passamos a porco assado, gallinha etc etc e por sobremeza o saboroso mellado com raspas torradas. Para não sermos encommodados, o Albino armou a minha barraca no meio do matto e um pouco distante, para que os amigos não sentissem o cheiro dos bons assados.
Marchamos a 25, chegando a 27 em Itacuruy onde encontramos um grande mandiocal que por sua vez foi tambem devorado quase todo. Primeiro comeram cruas as mandiocas e depois cozidas e assadas, resultando disso quasi todos ficarem doentes. Falleceram dois soldados e julgaram, por isso, serem mandiocas brabas, quando eu e meu camarada e outros muitos que comemos ellas bem assadas, nada soffremos.


A PERIGOSA MARCHA DOS ENFERMOS


........Marchamos a 28, chegando a 29 em Villa do Rosario. Seriamente doente em S. Joaquim e ainda não bom dos pés fui ao General Rezior ver se obtinha ordem para me cederem um animal para minha montaria. Só pude obter permissão para marchar na retaguarda com os doentes, não fornecendo animal a ninguem porque a propria artilharia estava com falta delles, por terem os soldados esfaqueado muitos para carnearem. Nesta viagem fiquei bastante desanimado, tendo momentos de deitar-me com tenções de não mais levantar-me e preferindo ser degolado pelo inimigo. Mas Deos que zela por nós, não consentio nessa cobardia e animando-me, levantava-me e vagarosamente marchava, chegando quasi sempre a noite no acampamento. Por felicidade dos retardatários, nunca encontramos inimigos no caminho. Tambem por felicidade minha encontrava, assim chegava ao “palacete”, alguma coisa preparada por meu camarada, que chegava antes com a bagagem. Assim, esquecia as dôres soffridas nas marchas que foram feitas quasi todos os dias, arrimado a um bom cacete para amparar-me na marcha. Nessas occasiões quantas saudades da Mãe adorada e dos queridos irmãos que talvez nunca mais veja ! Devido ás chagas dos pés, appareceu-me um par de inguas que não me deixava andar, valendo-me do cacete para firmar-me nos lugares onde era precizo saltar. Não tinhamos ambulancia para condução dos doentes e não eram poucos os que seguiam commigo e me parecendo existirem muitos em piores condições que a minha. Julgo mesmo que alguns delles nunca mais chegaram ao acampamento e nem se davam ao incommodo de mandar ver si estavam vivos ou mortos para serem enterrados, e assim lá ficavam para repasto das aves de rapina, sendo considerados extraviados. Eu, graças á Nossa Senhora da Conceição Apparecida, encontrava na barraca algumas appetitosas iguarias, restante ainda da excursão do Albino aos casebres das paraguayas, mas o desgraçado que não tinha quem lhe preparasse e muito menos o que preparar ! Julgo, porém, que nestas condições existiam pouquíssimos, porque todo o soldado tem um amigo, companheiro em sua barraca, que divide entre os dois os seus sorrisos e as suas lagrimas. O meu companheiro e Amigo era o Tenente Pimenta que foi baleado em Peribebuy.
Graças á Nossa Senhora da Apparecida, mais uma vez livrei-me da horrível morte. A maioria dos soldados e officiaes se achava com o ventre todo inchado, devido ao mingáu e farinha de palmito de S. Joaquim. No dia 7 de Novembro dei parte de doente, mas não querendo baixar ao Hospital, á 9 apresentei-me, dispensando-me o Commandante de todo o serviço. Á 28, ja quasi bom, apresentei-me prompto. Á 17 de Dezembro fui destacado para o Porto do Rosario, tudo de 1869. Á 6 de Janeiro de 1870 regressei ao Corpo por ter sido promovido a Tenente.


PROMOÇÃO A TENENTE POR ATO DE BRAVURA



........Por lembrança do Corpo, de 6 de Janeiro corrente e do Commando em Chefe, de 29 de Dezembro pp, fui promovido, por actos de bravura, ao posto de Tenente em Commissão pelos combates do mez de Agosto, com antiguidade de 18 do mesmo.
No dia 12 de janeiro marchamos para o porto; embarcamos no vapor Guaycurú no dia 13, saltando á tarde no de Potreiro-Iponã. Á14 marchamos, acampando em frente á Villa de S. Pedro; a 17 mudamos para a praça da Matriz, no centro da povoação. Aqui chegamos com um regular resfriamento, tomei na noite de18, um suadouro com escalda-pés de cinza, dado pela paraguaya, dona da casa onde eu pernoitei.


O RETORNO A PÁTRIA DOS VOLUNTÁRIOS

........O nosso Batalhão deveria, mais adiante, fazer juncção com a Divisão do General Camara em perseguição a Lopes. Infelismente, esta madrugada chegou o 9º Batalhão de linha para nos render, devendo todos os Corpos de Voluntarios recolherem-se á Patria amada. Ás 11 horas do dia 19, debaixo de muita chuva impertinente, marchou o 23º de Voluntarios em regresso para Iponã. Ahi chegando ao escurecer, viajando sempre por banhados lamacentos até os joelhos. Acampamos em uma vargem completamente alagada de lama, sendo preciso forrar a barraca com grande quantidade de ramos verdes molhados. Foi necessario ao deitarmos, sentarmo-nos a entrada da barraca e lavar as pernas impregnadas de immunda lama que circulava a barraca. O capote molhado servia para forrar os ramos tambem molhados; felismente tive roupa enxuta para mudar. Á 20 embarcamos no vapor Conde D´Eu, desembarcando no Porto do Rosario, acampando mais adiante do antigo acampamento. Apresentei-me á revista medica effectuada no Batalhão e o “illustre” medico, depois de um ligeiro exame, me disse que só existia uma grande “catharreira”, mas que com o tempo passaria e assim nem remedio obtive. Oh ! Meu Deos ! Se isto é passado com um official, que farão aos soldados ? Doentes, não attendidos, sendo julgados promptos para todo o serviço, amanheciam mortos na barraca ! Por mais de uma vez isso aconteceu no acampamento de Tuyuty, obrigando o nosso Commandante Cel. Carlos Betebzê a pedir permissão ao General em Chefe para, no nosso acampamento, edificar um grande Galpão para os doentes do Batalhão.
Os medicos eram então obrigados diariamente á visita medica em presença do Commandante, do Major Fiscal ou do Official d´Estado, que não consentiam que esses estudantes commettessem injustiças. Os doentes eram tratados por enfermeiros do proprio Batalhão, com todo o zelo e carinho e fiscalisados pelo Official d´Estado. Foi o unico Commandante que soube pôr um freio aos relaxamentos desses medicos. Entre os médicos existem alguns bons, mas são tão raros que os Batalhões não os veêm. Elles preferem os Hospitais e Quartel General, deixando os Batalhões para os estudantes.


EMBARQUE NO VAPOR WERNECK


........Aqui estamos anciósos e a espera de Vapor que nos condusa á Patria.
........Hoje, 27 de Fevereiro de 1870, está o 1º Corpo de Voluntarios da Patria (actual 23º) preparando-se para amanhã embarcar com destino ao nosso querido Brasil.
........Hoje, 28 de Fevereiro, embarcamos no vapor Werneck, descendo em direcção a Assumpção, Capital da Republica do Paraguay, chegando no mesmo dia, não desembarcando ninguem. Partimos no dia 1º de Março de 1870, chegando á Villa de La Paz, Provincia de Entre Rios, no dia 4, saltando em terra só os Officiaes. Á tarde continuamos a viagem, saltando a 7 em Montevidéu, onde obtivemos a grata e boa nova de que se tinha ferido o ultimo combate com os Paraguayos no rio Aquidaban, no dia 1º de Março, onde Francisco Solano Lopes pagou com a vida as crueldades que teve para com os miseros Paraguayos, dignos de melhor sorte, e que de agora em diante gosarão de liberdade. Ficou tambem sem vida o seu filho Panchito. Coube esta gloria ao 9º Batalhão de Infantaria de linha que ha poucos dias nos rendeu em S. Pedro.
Um piquete de Cavallaria os surprehendeu próximo a esse rancho onde foi morto. Graças a Deos, estamos em caminho da Patria que ha mais de cinco annos não vemos. No dia 8 á tarde continuamos a marchar. No dia 12 de Março de 1870, grande alvoroço a bordo, dando-se enthusiasticos vivas de alegria por termos avistado terra da Patria. Foi indescriptivel o delirio do Batalhão, quando pôde avistar terra. Só á vista d´esta terra, esquecemos todos os soffrimentos nesses longos annos de lucta porque passamos. Em nossa Patria tudo tem mais vida, até o lindo céo de Santa Catharina onde saltamos a 12, está anilado e bello. Na Cidade de “Desterro”, Capital da Provincia de Santa Catharina onde estamos, fomos obsequiados pelo Commandante Cotrin com uma soirée, dançando-se até a madrugada, sendo a officialidade alvo das maiores attenções do Commandante e de sua Exma Familia, ficando nós captivos das gentilezas e carinhos com que fomos tratados pelas nossas bellas e amaveis patricias.


CHEGADA AO RIO DE JANEIRO


Hoje, 17, embarcamos. Chegando ao Rio de Janeiro a 19, desembarcamos em Nictheroy, Capital da Provincia do Rio de Janeiro e pernoitamos no Quartel da Armação. Si ao avistarmos terra da Patria nossos corações transbordaram de alegria, o que não foi ao avistarmos a bella Guanabara, a mais linda bahia do mundo, o Gigante e bello Pão d´Assucar, a Urca, e todos os outros que circulam a nossa heroica Cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro !
Hoje, 20, obtive licença para seguir para a Côrte, a tratar de um pé que tem uma frieira arruinada e impossibilitando-me de calçar botina.
Do primitivo 1º Corpo de Voluntarios da Patria, com setecentos e vinte e oito homens, voltaram 96 que tiveram a felicidade de regressar com o Batalhão que aqui chegou com o nº de 23º, pela organização effectuada no exercito, no começo da guerra e mais uns 30 que regressaram antes, por terem sido feridos e inutilisados.
Por Decreto de 23 de Março, fui agraciado com o habito de Cavalleiro da Ordem da Rosa e considerado Tenente Honorario do Exercito.
No dia 24 recebi a medalha da Rosa, offertada por meu tio o Sr. Barão de Guapy.
A 9 de Abril de 1870, dissolveo-se o 23º Corpo de Voluntarios da Patria, antigo 1º de Voluntarios da Côrte. A Bandeira, que foi condecorada pelo brilhante Combate de Esterro-Belaco, em 2 de maio de 1866, foi depositada pelo Batalhão na Capella Imperial.
Aqui finda a narração veridica do que se passou commigo, durante cinco annos e 53 dias em que fui soldado. Por passa-tempo nos acampamentos tomei estas notas, mas como a maior parte foi escripta a lapis e já muito apagado, fiz a transcripção fiel do occorrido.
Acabou-se a minha vida de soldado, talvez a mais bella até aqui, mas como pretendo melhorar, continuarei com estes apontamentos.



F.P.S. Barbosa

Abril 9 de 1870





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