Eric Hobsbawm e o 11 de Setembro.
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Tópico: Eric Hobsbawm e o 11 de Setembro.
Cesar
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 Postado em 29/06/2007 1:27:00 PM

Nota: segue entrevista com o historiador britânico Eric Hobsbawn.

Eric Hobsbawm e o 11 de Setembro



Eric Hobsbawm nasceu em 9 de junho de 1917, em Alexandria. Quando na década de 30 foi para a Inglaterra, se tornou Marxista e começou uma brilhante carreira acadêmica. Sua nova autobiografia revela que em 85 continuava sendo um 'comunista não arrependido'. Historiador marxista, é autor de estudos clássicos, como A Era do Capital.
Clique aqui para ler sua biografia.
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Entrevista com o historiador Eric Hobsbawm
Cassia Maria Rodrigues
Correspondente LONDRES

Uma nova cultura de guerra parece estar surgindo neste início de século. O senhor teme que um possível choque entre as civilizações possa substituir o confronto das idéias?

ERIC HOBSBAWM: Não acredito, como também não reconheço essa nova modalidade de guerra. Guerra se declara a um estado, não a facções religiosas ou políticas. Quando lemos ou ouvimos os últimos noticiários sobre “guerra aos terroristas”, “guerra do bem contra o mal”, concluímos que, até agora, a guerra está sendo travada no campo da retórica. Trata-se, na verdade, de uma retórica auto-referencial dos Estados Unidos. É natural que os americanos despertem de um drama sangrento com sede de revanche, de retaliação, pois hoje eles se sentem violados em seus mais profundos valores. Tragédias provocadas pelo terror cimentam a solidariedade civil e, conseqüentemente, irrigam a sede de vingança. A hora, contudo, é de reflexão, não de revanche. O momento é inoportuno também para se falar em justiça, pois neste momento ela seria interpretada como vingança nos Estados Unidos. Mas falar em “choque entre civilizações” é uma tentativa de redirecionar o problema. Estamos assistindo a um conflito de opiniões, não a um choque entre civilizações. Cristãos e islâmicos formam uma única civilização. Ambos têm seus valores e dogmas bem sedimentados. Portanto, tentar colocá-los em lados opostos é pretender fragilizar o argumento histórico.

Qual o curso que o terror nos Estados Unidos segue?

HOBSBAWM: Há duas mensagens contidas nos ataques terroristas aos Estados Unidos, que todos nós, do mundo ocidental, deploramos, assim como igualmente reagiram a maioria dos países do Oriente Médio e da Ásia. Primeiramente, o governo americano deve se perguntar por que uma onda antiimperialista, antiamericanista, que ganhou força em todos os oceanos do mundo, inunda com tanta implacabilidade os Estados Unidos? Outra mensagem encontra-se embutida em duas outras indagações: por que os responsáveis por essa tragédia sacrificaram as próprias vidas no processo, e por que os Estados Unidos são hoje odiados com imensurável rancor não somente nos países árabes e islâmicos, mas em grande parte do mundo em desenvolvimento? A essas perguntas os Estados Unidos respondem com ponderações incipientes, dizendo que a liberdade e a democracia foram atacadas. A resposta não é tão simplista. A mim, pessoalmente, parece que alguém está tentando dizer ao presidente George Bush que sua política externa negligenciou as necessidades de grande parte dos países árabes e islâmicos, dos países em desenvolvimento; que nenhum país é hegemônico o suficiente para governar o mundo sozinho.

O senhor acredita que a reação dos Estados Unidos, até o momento, tem se revelado infrutífera? Que Osama bin Laden é o culpado?

HOBSBAWM: Não é improvável que Bin Laden esteja envolvido, mas estamos à espera de evidências irrefutáveis. No momento, o presidente Bush reage da maneira como os americanos desejam que ele reaja. A prisão de suspeitos nos Estados Unidos é uma resposta imediata à ansiedade, à angústia do povo americano. A declaração de guerra, igualmente. Mas é no fronte da política, da diplomacia — e não da força — que a resposta americana se mostrará mais eficiente. A política de assassinatos a mentores de ataques suicidas, conduzida por Israel na Palestina, tem fracassado. Se Bush decidir copiar o modelo israelense para solucionar um problema que até agora se encontra na esfera doméstica americana, é provável que se defronte também com o fracasso. Invadir o Afeganistão, assassinar Bin Laden e seus seguidores? Não me parece a reação mais eficiente. Se Bin Laden é mesmo o responsável pelos ataques aos Estados Unidos, outras células do terrorismo podem ser encontradas fora do Afeganistão. Quando o presidente Bush solenemente anuncia que declara guerra aos terroristas, ele não quer dizer que está se mobilizando contra o ETA ou o IRA. É isso o que o mundo muçulmano, igualmente em choque, se pergunta. Quando se fala em guerra, devem-se avaliar as conseqüências que os excessos de retórica podem gerar.

O senhor, então, não acredita que estejamos próximos de uma Terceira Guerra?

HOBSBAWM: Não creio. Acho que o bom senso tende a prevalecer sobre o sentimento de intolerância. Qualquer sugestão de ação militar agressiva no Afeganistão será contraproducente: será a oficialização do recrutamento de uma nova geração de terroristas suicidas.

Vários líderes europeus, como o primeiro-ministro Tony Blair, em um primeiro momento reagiram com simpatia à idéia de lutar lado a lado com os Estados Unidos na guerra contra o terrorismo. Diante da reação unificada do mundo islâmico, eles recuaram. Esse recuo pode levar ao isolamento dos Estados Unidos nesse processo?

HOBSBAWM: Acredito que sim. A Europa teme uma eventual guerra declarada nos limites da paixão. Da China ao Brasil, Bush conta com a simpatia internacional para uma resposta eficiente ao terrorismo. Mas, entre esses países, o uso da força, até o momento, tem sido rejeitado. A melhor contribuição que Tony Blair poderia dar aos Estados Unidos é dizer a Bush para não se precipitar; para não se lançar em uma aventura militar. Aqui na Grã-Bretanha, onde convivemos com o terrorismo há quase 40 anos, já aprendemos que não podemos falar a mesma língua — da violência — que os terroristas falam. Seria a galvanização do inimigo. Quando o mundo se inclina entre a razão e a insanidade, como podemos observar agora, poucas certezas permanecem, além do fato de esta guerra estar sendo declarada em nome dos que defendem a paz.

Na sua opinião, a mídia tem se mostrado responsável na cobertura da tragédia americana?

HOBSBAWM: Acho que não. Como eu disse antes, está havendo um choque de opiniões, e não entre civilizações, patrocinado pelos órgãos de imprensa. Mas esperemos que a opinião pública saiba distinguir entre as duas vertentes.

Uma nova era dos extremos se anuncia para o século XXI?

HOBSBAWM: Os Estados Unidos são um país que despertam crítica e indignação em casa e no exterior. Vietnã, Nicarágua, os direitos palestinos negligenciados, são alguns casos que têm fomentado esses sentimentos. Mas somos meros espectadores da História. Vamos ver o que ela nos dirá. Ainda é cedo para avaliar.
Fonte: O Globo, 18/09/02
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ENTREVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO COM O HISTORIADOR ERIC HOBSBAWM
ANÁLISE
A globalização foi usada como arma
Terror explorou fragilidade, diz Hobsbawm
FÁBIO ZANINI
DA REPORTAGEM LOCAL
Os terroristas que lançaram dois aviões contra o World Trade Center e um sobre o Pentágono, há uma semana, usaram a globalização como arma.
Esta é a interpretação para a série de atentados do historiador Eric Hobsbawm, professor emérito de história econômica e social da Universidade de Londres e autor de, entre outros livros, "A Era dos Extremos".
Em entrevista à Folha, Hobsbawm, 84, um dos maiores historiadores vivos, sustenta que os extremistas não apenas se aproveitaram da liberdade de movimento e fácil acesso à informação para viabilizar o atentado. Souberam atacar no exato instante em que os EUA demonstram vulnerabilidade econômica (espelhada na recessão) e política (a escalada de hostilidade com que seus aliados no Oriente Médio têm de lidar).
"O mundo moderno é extremamente vulnerável a qualquer tipo de interrupção em seus fluxos normais. Os terroristas foram bem-sucedidos em explorar isso. Em períodos de sensibilidade generalizada, atos terroristas podem fazer uma diferença", disse de sua casa, em Londres.
Apesar do perigo que representam, os grupos terroristas não têm, na visão de Hobsbawm, capacidade para destruir um Estado, quanto mais uma superpotência como os EUA. Por isso, acha que não há motivo para histeria.
Autor da tese de que o século 20 foi "breve", por ter se estendido da Primeira Guerra Mundial (anos 10) à queda do chamado socialismo real (virada dos anos 80 e 90), ele acha que os atentados são o início de uma "nova era". O trauma para os EUA, na opinião dele, é inigualável: maior até que o do assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, em 1963.
O historiador vê riscos "episódicos" para as liberdades civis. Mas se mostra confiante de que a democracia americana resistirá.

Folha - Por que um ataque tão violento a símbolos do poder econômico e militar norte-americano?
Eric Hobsbawm - Seria mais fácil saber se conhecêssemos exatamente quem o realizou. Mas é claramente um grupo de revolucionários islâmicos, fundamentalistas, porque há muito ressentimento, particularmante no mundo islâmico, contra os EUA. Em parte porque é a maior superpotência imperialista e, mais especificamente, por causa do conflito palestino-israelense.
Folha - Qual foi o alvo exato dos ataques?
Hobsbawm - Foi um ataque aos EUA. É um ataque feito por pessoas que estão extremamente bem-organizadas e que, eu acho, descobriram que o mundo moderno é ao mesmo tempo globalizado e extremamente complexo. Portanto, sensível, vulnerável a qualquer tipo de interrupção em seus fluxos normais. E exploraram isso de forma bem-sucedida.
Folha - Então a globalização foi usada como arma?
Hobsbawm - Tornou-se possível haver movimentos como esse por causa da moderna globalização. Esta é uma operação que foi feita, digamos, por 50 a 100 pessoas. Quase todas moravam nos EUA havia um ou dois anos.
O mundo hoje está cheio de pessoas indo de um país para outro, não é nada surpreendente. Cinquenta anos atrás, seria surpreendente encontrar um grupo de 25, 30 jovens sauditas ou iemenitas em qualquer universidade. Hoje, encontrá-las em universidades alemãs, americanas ou canadenses é normal. Isso viabiliza este tipo de atividade terrorista global.
Folha - Seria também um ataque contra a globalização?
Hobsbawm - Não. O ataque é político. Os terroristas sabem que não podem nem pensar em vencer uma guerra contra os EUA. Mas podem desestabilizar a situação nos países muçulmanos afinados com o Ocidente cujos governos não têm apoio das massas. E, se você pensar que estas pessoas estão querendo derrubar governos na Arábia Saudita ou mesmo no Egito, pense como um grande gesto público contra os EUA teria implicações enormes nestes países, em que grupos menores representam uma força política em posição de afetar os governos locais. Os alvos reais são todos os governos destes Estados nominalmente muçulmanos que são apoiados pelos americanos e apóiam os americanos.
Folha - Pode ser feita alguma comparação entre os objetivos destes grupos e a onda de protestos anticapitalismo que também têm os EUA como alvos principais?
Hobsbawm - A única raiz comum que existe é que os movimentos antiglobalização também operam globalmente. São também, em larga medida, movimentos de minorias. E operam por enormes golpes de publicidade. Mas é tudo. Não há absolutamente outras similaridades. Os movimentos terroristas são conduzidos por um número pequeno de pessoas, que não tentam mobilizações de massa. Não acho que se interessem pelos temas dos movimentos antiglobalização, como meio ambiente.
Folha - É célebre a análise que o sr. fez de que o século 20 foi breve, por ter começado com a Primeira Guerra. Nos últimos dias, tem sido feita uma analogia com essa tese, pela qual o século 21 começa com estes atentados. O sr. concorda?
Hobsbawm - O ataque é obviamente parte de uma nova era. Não é similar a nada do século 20, exceto em um aspecto: no curso das últimas décadas do século 20, tornou-se claro para os governos que seria muito difícil, sob as condições de uma democracia liberal, eliminar a atividade armada de pequenos grupos. Os governos perderam o monopólio da força física. Estes pequenos grupos não podem vencer, mas são muito difíceis de eliminar.
Nós, na Inglaterra, temos tido problemas com o IRA [grupo guerrilheiro que luta pela separação da Irlanda do Norte do Reino Unido" por 30 anos e eles ainda estão lá. Na Espanha, temos um problema similar com o ETA [grupo separatista basco]. A capacidade dos terroristas de interromper o funcionamento dos EUA ou mesmo de países pequenos é muito limitada. Mas, em períodos de sensibilidade generalizada, podem fazer uma diferença.
Folha - Eles escolheram então o momento em que os EUA caminham para a recessão para atacar?
Hobsbawm - Sim. A situação econômica é mais frágil e economicamente este evento teve um impacto muito maior do que politicamente. Mas o poder dos terroristas é extremamente limitado e não deveríamos ficar histéricos.
Folha - Qual será o tamanho deste trauma nos EUA? É comparável ao assassinato de Kennedy ou à Guerra do Vietnã?
Hobsbawm - Tenho certeza de que é um trauma enorme para os americanos porque, pela primeira vez na história, operações militares estrangeiras tiveram um impacto no território dos EUA. No século 20, um século cheio de guerras mundiais, elas aconteciam em qualquer outro lugar que não nos EUA. Agora, pela primeira vez, o centro exato dos EUA, o centro militar, o centro econômico, foi diretamente afetado. E este é o trauma. Não é o fato de 5.000 pessoas terem sido mortas, o que é terrível e estarrecedor, mas na verdade não é maior do que outras catástrofes. O trauma é que isto aconteceu sem a ajuda de nenhum Estado estrangeiro, só pela ação de algumas dúzias de pessoas sequestrando aviões com canivetes, que destruíram áreas de Manhattan e do Pentágono. Por causa disso, me parece que é muito mais importante que o assassinato de Kennedy, que não mudou muita coisa na política americana.
Folha - Que tipo de consequência haverá para os fundamentos da nação americana? O sr. teme que o combate ao terrorismo resulte em supressão de liberdades civis?
Hobsbawm - Eu acho que a estrutura da República americana é suficientemente forte para resistir a isso. A democracia americana vai continuar, mas sem dúvida haverá episódios em que os americanos tentarão ficar mais burocráticos ou limitar liberdades civis. Mas serão apenas episódios. A força da América está na natureza pluralista de sua estrutura. Na última terça-feira, por cerca de 24 horas, pareceu a mim, vendo de longe, que o Estado americano virtualmente se desintegrou. Houve um período de 12 horas em que ninguém sabia onde o presidente estava, nada parecia funcionar. Ainda assim, os EUA seguiram em frente. Essa é a grande força dos EUA: a capacidade de seguir adiante, apesar dos colapsos temporários.
SAIBA MAIS
Interesses do historiador vão de Marx ao jazz
DA REPORTAGEM LOCAL
Eric Hobsbawm é um caso cada vez mais raro de historiador que ainda se define como comunista. Professor de história econômica e social da Universidade de Londres, ele utiliza o método marxista da investigação histórica, dando ênfase à luta de classes como propulsor das transformações.
Hobsbawm nasceu em 1917 em Alexandria (Egito), filhos de judeus de classe média. Na carreira acadêmica, que desenvolveu também em Berlim e Viena, descreveu o processo que resultou na formação contemporânea do Ocidente.
Em quatro livros, que cobrem o período que vai da Revolução Francesa (1789) à queda do comunismo no Leste Europeu (1991), Hobsbawm analisa mudanças políticas, sociais e culturais.
Em sua obra mais conhecida, "A Era dos Extremos. 1914-1991", ele se preocupa em situar a importância que tiveram Hitler e a bomba atômica, mas também o jazz e a moda. Em seu último trabalho, "O Novo Século" (2000), o historiador se aventura a fazer previsões sobre os próximos 100 anos.
FRASE
"O ataque é político. Os terroristas sabem que não podem nem pensar em vencer uma guerra contra os Estados Unidos. Mas podem desestabilizar a situação nos países muçulmanos afinados com o Ocidente cujos governos não têm apoio das massas. Os alvos reais são todos os governos destes Estados nominalmente muçulmanos que são apoiados pelos americanos e apóiam os americanos."

ERIC HOBSBAWM
historiador

Fonte:

http://paginas.terra.com.br/arte/sarmentocampos/Eric.htm



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