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Tópico: ENTENDENDO O BANTO
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 Postado em 18/06/2006 11:41:00 PM



TOQUES D´Angola Ano III, numero dois Brasília, maio 2004

SWAI ROGER TEODORO CLEAVER,
historiador e membro do Nzinga-DF.

Já há algum tempo tem sido feito, por vários intelectuais, considerável esforço pela compreensão da influência africana para a formação do Brasil.

Alguns autores, como Yeda Pessoa de Castro e Nei Lopes, têm chamado atenção para um alarmante fato: a matriz africana mais importante para nossa formação cultural – a matriz banto – tem sido, desde o começo dos estudos afro-brasileiros, depreciada e esquecida em favor de uma outra matriz, a iorubá (também chamada nagô), que, apesar de importante, exerceu influência muito menos significativa para nossa formação (CASTRO, 2001; LOPES, 1988).

Os bantos (originários da África Central), têm sido vítima de grande preconceito, desde os tempos da escravidão, ao serem considerados culturalmente inferiores aos povos vindos da África Ocidental (como jejes, hauçás e iorubás). Para muitos estudiosos, estes povos teriam sido os únicos a manter intacta uma cultura africana no Brasil. O fato dos bantos terem, em quatrocentos anos, mesclado elementos da cultura branca e indígena em algumas de suas tradições, comprovaria a idéia de que sua cultura seria inferior à dos iorubás e sua mitologia mais rudimentar (Cf. CARNEIRO,1991:174).

Assim sendo, cem anos após os primeiros estudos afro-brasileiros, é hora de superar os estereótipos que, no pensar da afro-brasilidade, nos têm impedido de perceber a importância do legado africano para o Brasil.

O próprio termo “banto”, no entanto, continua sendo pouco conhecido, e compreender seu significado é o primeiro passo para que possamos reconhecer a dimensão de nossa herança africana.

“Banto” (ou bantu) significa, em centenas de línguas africanas, “as pessoas” ou seja, “os seres humanos”. Quando, no século XIX, um lingüista alemão – Wilhem Bleek – começou a estudar as línguas africanas para saber de onde e como tinham surgido, ele resolveu utilizar o termo “banto” para designar todas as línguas nas quais esta palavra – “banto” – possuía o mesmo significado; assim, na sua sistematização dos idiomas africanos, estas línguas passaram a ser chamadas de “línguas banto”.

Todas estas línguas têm também uma raiz comum, provavelmente uma língua muito antiga e desaparecida há milhares de anos, chamada de “protobanto” (CASTRO, 2001: 27-37).

Com a continuidade dos estudos sobre estes povos, várias outras semelhanças foram sendo percebidas, e de uma denominação para um conjunto de línguas, o termo banto passou a designar o conjunto dos próprios povos que as falavam, surgindo assim o hábito de usar o termo para designar pessoas, povos, culturas: os povos banto, a arte banto, a filosofia banto. O termo é amplamente utilizado hoje.

Na África atual, os bantos se encontram em mais de vinte países, espalhados por 9.000.000 km² e chegando a 190.000.000 de pessoas. Entre os países com povos e línguas banto poderíamos citar Angola e Moçambique (que falam também português), Zimbábue, Camarões, Gabão, Quênia, Congo, Ruanda, Namíbia, Burundi e África do Sul. Como se pode ver, a palavra “banto” encerra enorme diversidade, tendo assim um significado muitíssimo mais amplo que o de um etnônimo (nome de etnia).

Os bantos tiveram importância fundamental na história brasileira, pois foram maciçamente introduzidos no Brasil durante os três séculos da escravidão. Ao contrário dos outros africanos (que ficaram restritos mais ao litoral e Minas Gerais), eles se espalharam por todas as regiões do Brasil, participando ativamente da reconstrução cultural que caracteriza nossa história. Estes bantos vieram principalmente da região de Congo e Angola, que antigamente se dividiam entre os reinos do Congo, Ndongo e reinos ovimbundos, entre outros.

Além dos povos bacongo (que falavam a língua quicongo e oriundos do Congo), dos ambundo (do Ndongo, que falavam o quimbundo) e dos ovimbundo (falantes do umbundo), vieram também os monjolo, os anjico, os balundo e muitos outros (CASTRO, 2001: 25-26).

O grande fluxo de bantos para o Brasil se deveu ao fato de que, para Portugal, Angola e toda África Central não passavam de um grande fornecedor de escravos para a colônia brasileira. Houve um verdadeiro esvaziamento populacional na África, primeiro nos reinos da costa, como Congo e Ndongo, e em seguida também nos reinos mais internos, como Cassanje e Matamba (DELGADO, V.3, 1940: 40).

Uma vez aqui, os bantos foram determinantes para a nossa formação social e cultural. Tiveram grande influência religiosa: a umbanda e os candomblés de caboclo e angola (variedades de candomblé) são banto em suas raízes.

Candomblé vem de “kandombélé”, que significa “rezar” em várias línguas banto, como umbanda vem de “mbanda”, que significa “algo sagrado”.

As influências vão muito além do campo religioso. A maioria das manifestações populares afro-brasileiras, vieram dos bantos. É o caso do samba, do jongo, das congadas, das festas do boi, da capoeira de Angola ou do Moçambique (CARNEIRO, 1991). Manifestações insuficientemente estudadas e que são muito mais que mero “folclore”.

Sem compreendê-las melhor, tampouco compreenderemos a importância do legado africano para nós. A mais marcante contribuição banto, foi no entanto, para a nossa língua e, conseqüentemente, para nossa forma de pensar e lidar com o mundo. As línguas africanas foram o principal fator de transformação da língua portuguesa no Brasil e dentre elas, as línguas banto foram as mais importantes (principalmente o quicongo e o quimbundo).

Como escreveu a lingüista Yeda de Castro, em Falares Africanos na Bahia (2001:74), esta importância deveu-se “à antiguidade e superioridade numérica de seus falantes e à grandeza da dimensão alcançada pela sua distribuição humana (...)”. Como a mesma autora explica, vários aportes bantos, como “mucama”, caíram em desuso, pois eram relativos à época da escravidão. A maior parte deles, no entanto, estão completamente integrados ao nosso dia-a-dia. É o caso de “quitanda”, “carimbo”, “cachimbo”, “corcunda” ou “cachaça”. Às vezes, os termos banto substituíram por completo o equivalente português, como é o caso de “caçula”, que é a única palavra que temos para nos referirmos ao irmão mais novo.

Assim, se o Brasil pretende valorizar seu legado africano, é urgente que ele reconheça a importância dos bantos para sua história.

Veja abaixo uma pequena amostra de termos comuns de origem banto, extraído do livro Falares Africanos na Bahia:

CANJICA:papa de milho, do : quicongo /quimbundo
kanjika.
CAPANGA: guarda-costas, do quicongo/quimbundo
kimpungo.
CARIMBO: selo, sinete, do umbundu kandimbu.
DENDÊ: palmeira, fruto da palmeira, do quicongo/
quimbundo/umbundu ndende.
DENGO: birra, manha, do quimbundo ndenge.
FUBÁ: farinha de milho, do quicongo mfuba.
FUTUCAR: remexer, procurar, do quimbundo kufuca.
GANGORRA: balanço, do quicongo kangula.
GINGA: balancear, movimento da capoeira, do quicongo/
quimbundo zinga.
LENGALENGA: conversa-fi ada, enganosa, do
quimbundo/quicongo lenga-lenga.
MACACO: símio, do quicongo makaaku.
MACULÊLÊ: dança de bate-pau, do quicongo/
quimbundo mankwa leele.
MACUMBA: manifestações religiosas de origem banto
(congo-angola), do quicongo/quimbundo makuba (= reza,
invocação).
MANDRAQUE: feiticeiro, mágico, do quicongo
mandóki.
MANGAR: zombar, caçoar, do quicongo mannga.
MARACUTAIA: engodo, trapaça, do quimbundo
ma(dia)kutola.
MARIMBONDO: vespa, do umbundo alimbondo.
MINHOCA: verme anelídeo, do quicongo/quimbundo
nyoka (= cobra).
MOLEQUE: menino travesso, do quicongo/quimbundo/
umbundo nleeke.
MONJOLO: engenho simples movido a água, do
quicongo/quimbundo mansulu.
MUAMBA: contrabando, fraude, do quicongo/
quimbundo muhamba.
QUIABO: fruto do quiabeiro, do quicongo/quimbundo
kiambo.


REFERÊNCIAS
CARNEIRO, Edison. Religiões Negras e Negros Bantos. Rio de Janeiro:
Civilizações Negras, 1991.
CASCUDO, Luis da Câmara. Made in África. São Paulo: Global, 2002.
CASTRO, Yeda Pessoa de. Falares Africanos da Bahia. Rio de Janeiro:
Topbooks, 2001.
DELGADO, Ralph. História de Angola. 4Vol. Luanda: Banco de Luanda, 1940.
LOPES, Nei. Bantos, Malês e Identidade Negra. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 1988.
LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto do Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2003.
RAMOS, Arthur. O Negro Brasileiro. Rio de Janeiro: Graphia, 2001.
IMAGEM
Congofloden, STANLEY, Henry Morton, 1885 - cedido por http://congo.natmus.dk/billed-galleri.htm

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