A MORTE PARA OS NÀGÓ
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Tópico: A MORTE PARA OS NÀGÓ
Tata Obalumbi
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 Postado em 21/07/2005 4:21:00 PM

Mokoiu a todos.

A MORTE PARA OS NÀGÓ

Dentre os Yorùbá e sua descendência religiosa no Brasil, genericamente chamados de Nàgó, são comuns mitos, lendas, diversas narrativas que apresentam a realidade, estórias que dão significado aos acontecimentos. Com a morte não seria diferente e, esta é conhecida entre estes povos com o nome de Ikú.
Reproduzimos uma dessas narrativas, citada por Santos: “ Quando Olórun procurava matéria apropriada para criar o ser humano (o homem), todos os ebora partiram em busca da tal matéria. Trouxeram diferentes coisas: mas nenhuma era adequada. Eles foram buscar lama, mas ela chorou e derramou lágrimas. Nenhum ebora quis tomar da menor parcela. Mas Iku Òjègbé-Aláso-Òna, apareceu, apanhou um pouco de lama – eerúpé – e não teve misericórdia de seu pranto. Levou-o a Olódùmarè, que pediu a Òrìsàlá e a Olúgama que o modelaram e foi Ele mesmo quem se lhe insuflou seu hálito. Mas Olódùmarè determinou a Ikú que, por ter sido ele a apanhar a porção de lama, deveria recolocá-la em seu lugar a qualquer momento, e é por isso que Ikú sempre nos leva de volta para a lama” (1986, p. 107). Assim podemos observar a conotação de Ikú como o início e o fim, pois foi sua atitude que permitiu o surgimento da vida humana.
Para os Nàgó, a morte e a vida são constituintes de um eterno ciclo, a morte possibilita a vida, estar vivo implica em morrer e morrer é voltar ao início da vida. Não há um início e um fim encerrados em si, estamos sempre recomeçando, num eterno renascimento.
Como observa Santos: “a morte não significa absolutamente a extinção total, ou aniquilamento, conceitos que verdadeiramente o aterram. Morrer é uma mudança de estado, de plano de existência e de status. Faz parte da dinâmica do sitema que inclui, evidentemente a dinâmica social” (1986, p. 221). No entendimento dos Nàgó, a pessoa ao morrer, não acaba, a idéia é de que mudou-se para um outro lugar (o país dos Ancestrais). Após morrer a pessoa pode tornar-se um ancestral, compreensão amplamente carregada de afetividade, pois o ancestral é o pai, que num outro plano, legisla e cuida de sua prole, de sua comunidade, “sendo (...) geralmente considerados como uma espécie de elo entre os homens e o sagrado” (Leite, 1982, p.149). A possibilidade de tornar-se um ancestral, diz respeito, ao modo como o indivíduo viveu a sua vida: que tenha tido boa índole, tenha morrido em idade avançada[1], deixado bons filhos, que sejam boas as lembranças que se tem dele. Se a situação for contrária aos valores desta compreensão, a morte é entendida como ruim, castigo das divindades ou dos próprios ancestrais.
Quando a morte é constatada, uma série de procedimentos rituais são iniciados, para desligar o morto de sua vida aqui e permitir a sua passagem, para que possa se realizar plenamente. Estes são desde tratamentos com o seu corpo, aos seus objetos de uso pessoal e de culto religoso, caracteriza-se num contínuo de rituais, que ocupa a família e comunidade em dias, meses e anos[2]. Observa Leite: “configurado o fim da vida no espaço terrestre a sociedade, vendo-se diante da morte, organiza-se rapidamente para dar continuidade à existência do homem, desta feita vivida no país dos ancestrais” (ibid, p. 163). Na morte está a possibilidade da continuidade da existência histórica num outro plano e, isto só é efetivado mediante estes rituais.
No Brasil, dentre os Nàgó, estes ritos funerários são chamados de Àsèsè. Restringe-se às pessoas do culto e a sua extensão (em dias) se relaciona ao grau hierárquico destas e as condições financeiras da família. Não vamos aqui, descrever as partes deste cerimonial, nem propriamente discutí-lo, apenas apresentamos, de forma mais flutuante, a sua funcionalidade.
Na compreensão dos Nàgó, existem duas categorias de entidades bem definidas, de um lado as Divindades (òrìsà), do outro os Ancestrais. Cada categoria tendo seus cultos próprios. Os òrìsà representam os ancestres divinos, simbólico-espirituais; os nossos pais e demais antepassados, representam os nossos ancestres concretos, reais (Santos, 1986, p. 103), estes são chamados de Égún.
São aos Égún que iremos nos ater; no Brasil existem dois tipos de cultos aos Égún: 1. o realizado nos lèsè-òrìsà (casas de culto aos òrìsà); nestes existe um espaço reservado, distante do dedicado aos deuses, chamado Ilè-ibo-akú, reservado ao culto dos mortos da comunidade religiosa, onde são venerados aqueles que foram iniciados no culto dos òrìsà, sobretudo os fundadores do candomblé[3], sendo estes últimos conhecidos com o nome de Èsà, que constituem os ancestres coletivos da comunidade. No Ilè-ibo-Akú se encontram os ojubo[4] coletivos dos ancestres masculinos e dos ancestres femininos, um para os homens, outro para as mulheres. Podendo constarem representações individuais masculinas. 2. o realizado nos lèsè-égún (casas de culto aos ancestrais), neste, o espaço reservado ao culto se chama ilé-ìgbàlè, sendo cultuados todos os ará-òrun[5] e os que foram iniciados no cultos dos égún (ibid, p.104). Neste espaço existe o ojubo coletivo, chamado Òpá-kòko, e os individuais, representados por varas, ramos etc.
Assim como os òrìsà, os ancestrais são divididos entre os que pertençam à direita e à esquerda, os primeiros referem-se aos ancestres masculinos, os segundos aos femininos. Os Ancestrais masculinos são cultuados na Sociedade Égúngún, sendo Ìyá-mi, sua contraparte feminina, cultuada na Sociedade Gèlèdé[6] e também na menos conhecida Sociedade E’léékò (ibid, p.105).
Observamos que os Égúngún são representados e cultuados de forma coletiva e individual, sobretudo individual, sendo antepassados conhecidos, que tem nomes próprios e, tem aparições nos cultos. Os Bàbá-Égún, como são chamados os espíritos dos mortos especialmente preparados para serem invocados, vem ao encontro de seus descendentes e fiéis, lhes trazendo o benefício de sua benção e de seus conselhos (ibid, p. 120). Já as Ìyá-mi o são de forma coletiva, representam uma totalidade.
Nosso interesse se restringe a significação dos ritos funerários, como brevemente observamos e, em como se dá a relação com os mortos iniciados no cultos dos òrìsà (Égún e Èsà).
A relação estabelecida pelos Égún com seus familiares e a comunidade é, como já mencionamos, a de legisladores e cuidadores, regulam as relações, a ética, a disciplina moral etc., tal como o faziam em sua existência visível. Nesta perpectiva os Égún são sempre participados da vida da família e comunidade, por exemplo, antes que alguém de sua família passe por um processo iniciático ou que a comunidade realize um festival religioso, estes são homenageados, sacrifícios lhe são feitos, pedindo a sua aprovação e proteção. A comunicação comumente se dá pela consulta dos oráculos, podendo também os ancestrais se comunicarem por sonhos e outros sinais.
Os ancestrais são a garantia da continuidade, pois com a morte é restituída à terra, à massa-de-origem de nossa humanidade, a p

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