INICIAÇÃO DA PÚBERE FEMININA
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Tópico: INICIAÇÃO DA PÚBERE FEMININA
Dandarê
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Local: Salvador -Bahia - BA - BrasilSexo Feminino
 Postado em 23/01/2006 12:06:00 PM

Queridos irmãos

O trabalho maior é resumir uma obra de tamanha magnitude, ms eu estava ansiosa para mostrar a vocês.

A INICIAÇÃO DA PÚBERE FEMININA


(Trechos extraídos do trabalho de John Anthony Randall Blacking(Etnomusicólogo) (1928-1990) “Escola de Iniciação das meninas de VENDA (África), em fase final de tradução, em curso, por Kota Mutarerê, do Unzó Kuna Nkici Tumbenci Malawla)


O VUSHA


Quando os seios de uma menina começam a despontar, ela se transforma em phalaphatwa e os mesmos são chamados makumba-milora (lit.feitiço da brasa). Quando seus seios ficam maiores ela é chamada o thungamamu (lit. com seios em pé).

Aproximadamente um ano mais tarde, as pessoas observarão espinhas na pele (( -khadzi: a palavra tem a conotação de um diagnóstico médico) refere-se a pélvis das meninas que indicam que muito em breve irá menstruar. Expressões populares são usadas para definir o novo estado são: -sema vhakegulu (abuso das senhoras) e -vhona (para ver a lua); a primeira menstruação é chamada bata pfe (parece com uma macaca babuína).

A menina não deve dizer a sua mãe que viu seu sangue menstrual. Deve dizer à sua Mama (irmã mais nova da mãe ou a outra esposa do pai). Mama diz à menina que tem algo bom para jogar o jogo da sedução (mu ): não deve dizer qualquer coisa sobre sua condição a seus companheiros; não pode lavar a roupa dela no rio, e deve parar de fazer -kwevha (que alonga os grandes lábios da vulva). Mama lhe diz para voltar quando vê o sangue outra vez, a fim de certificar-se que não é um alarme falso. Lhe dá um pano (muserwa) para usar por alguns dias sempre que seus períodos retornem. Este pano tem a utilidade de um “tampão” ou absorvente e é uma prática tradicional de Venda.

Quando chega outro período, a menina retorna à Mama, que lhe diz que agora ela cresceu e pode se casar. (Observe-se que embora a mudança física marque o crescimento, isto deve ser publicamente reconhecido, e reforçado as instruções sobre as suas conseqüências sociais.) Mama diz então as senhoras mais velhas, que vão dizer ao pai da menina. Finalmente seu pai diz a sua mãe, que expressa grande surpresa na notícia; diz as mulheres que agora a questão lhe pertence e que não devem se incomodar, nem mais tocar no assunto com o seu marido, exceto para informá-lo quando sua filha estará indo ao Vhusha.

O primeiro dia: a noviça chega ao local da escola

No dia marcado, a Mama deve levantar-se bem cedo e conferir as duas caixas de rapé , junto com a taxa da obrigação (Cr$3.00 em 1957). (as meninas comuns pagam antes de serem admitidas à escola, mas as nobres pagam mais tarde!)

Quando o rapé ( ) é entregue como pagamento da obrigação, ela vai ao local de uma menina que já cumpriu o seu segundo estágio e então a designará como companheira de ritual da noviça, ou seja, sua mme wa vhukomba a quem eu chamarei “mãe da escola”(Mãe Criadeira, Mamétu ndenge?). Enquanto isso Mama, (ouvi chama-la de Mama, a khomba (Mãe Criadeira) para distingui-la da mãe real das meninas (mme mubebi), foi limpar a cabana do Conselho de Régula onde a escola se estabelecerá e colocará no assoalho uma camada de esterco fresco. (Comforme colocamos nas paredes dos bakicê, no chão dos barracões,durante a firmeza destes).

Observe-se que diversos ritos têm que ser executados durante a preparação do local onde irá funcionar a escola, da mesma maneira como firmamos os duilos.

No por do sol, as pessoas recolhem as noviças para dentro de casa, e sua “Mãe da escola” reúne todas as mulheres iniciadas neste lugar. O trabalho das noviças é acompanhado por determinadas canções. A melodia começa com um movimento firme que vai aumentando e expressando determinação, seguido por uma incerteza ligeira que sugere uma busca.

A Mama cobre as noviças completamente com um cobertor, e enquanto seguem para o local da obrigação, cantam o muulu, agitando o lábio inferior com o dedo indicador da mão direita, e a “Mãe da escola” fala sussurando à noviça:
- Quando lhe perguntarem: “Quem é seu namorado?” você deve dizer-lhes seu nome. - Quando perguntarem: “Quem prova que você menstruou?” você deve dizer que você disse as sua Mmane.
- Quando disserem, “chore!” você deve dizer choro, se não o seu pai será multado numa cabra. E se você não diz choro rapidamente, sua Mmane beliscará sua pele, o bico de seus seios e suas partes íntimas.
- Quando lhe perguntam se você brinca com qualquer jovem desde que você menstruou, você deve dizer “oh! Não!”
- Quando lhe perguntarem se você brinca com meninos desde que seus seios começaram a crescer, você deve também dizer “Não!”.

Cada família envia ao lugar determinado, feixes de lenhas que serão usadas para iluminar as danças ritualísticas e manter aquecido o ambiente onde as mulheres e as meninas mais velhas ficarão.

A primeira fase da iniciação, chamava-se Vhusha e acontece regularmente nas Casas de Conselho dos régulas locais.

Sempre que uma menina da comunidade do Distrito, menstrua, é feito pedido à sua família para que ela seja mandada para ser iniciada.(Observem que é institucional. É o Estado que convoca).

Durante o Vhusha cada noviça passa por três estágios. Em todos três, o ritual é o mesmo, mas para graduar-se no segundo e no terceiro estágio a menina representa diferentes papéis e é liberada de determinados tabus. Seu progresso de um estágio a outro é determinado pela sua capacidade de ensinar as meninas em estágio mais atrasado. Os estágios são os seguintes:

Estágio I : Muhulu (ou muhulo; para -hula = para crescer)

A noviça ganha uma companheira de ritual, passa o tempo todo isolada no quarto do chefe ou do líder. Se for nobre permanece no privativo do líder (Cabana Privada), enquanto se for do póvo fica no tshivhambo, (Cabana do Conselho) em condições mais ou menos privativa.

Não pode falar com nenhum homem exceto seu pai e seus irmãos, até que termine o segundo estágio (veja abaixo). Todos seus cabelos do corpo são raspados, e não é permitido o uso de ornamentos.

No primeiro dia do Vhusha é despida e surrada 28 vezes pela mulher responsável (Mam´étu Ndengue???), quatorze cipoadas em cada coxa. Se a noviça for fraca ou doente, ou não desejar ser surrada duramente, pode pagar uma multa (1.00 um dólar, em 1957) e receber somente 8 (oito) cipoadas.

Aprendem primeiramente uma série de fórmulas, que chamam de MILAYO e pode ser traduzido como “A Sabedoria”. São regras de conduta e etiqueta social. Na coreografia dos rituais têm um significado simbólico, como se fossem objetos. À esses determinados objetos familiares são dados nomes especiais que devem manter para sempre em segredo; só quem os conhece são as iniciadas daquela escola.

Por 8 (oito) dias permanece despida e coberta somente com um cobertor.

Pode ser pinchada, atormentada, e obrigada a trabalhar, pelas meninas “sênior”= mais velhas.

Recebem instruções especiais das velhas senhoras, que as atendem somente na primeira e última noite. Pelo resto do tempo, as noviças são supervisionados pelas meninas “sênior”=mais velhas, que comem também com elas duas vezes ao dia no quarto (bakici????) uma papa ou mingau mole (feito de farinha de milho branco) misturada com amendoim e flores da abóbora (dovhi vhuluvha), cujos ingredientes são fornecidos pela mãe da noviça.

O mingau deve ser cozinhado numa panela de ferro. (Gente! É o mingau de milho branco!!!, reforçado com amendoim (já que elas vão casar logo... e flores para temperar!!!)

Além dos grãos, cada noviça deve dar duas aves, colocando junto, ao menos dois ovos que foram colocados por cada ave (e não por outras aves). Se não puder levar as aves e os ovos, deve pagar uma taxa (25 centavos pela galinha, e 5 centavos pelo ovo em 1957), enquanto isto é atendido as noviças sênior pensam o que vão fazer.

Todo alimento, inclusive a carne, é providenciado pelas mães das noviças, cozinhado pelas meninas do segundo estágio, e apreciado principalmente por aqueles em seu terceiro estágio e além.

A moela e um pé de cada ave são dados à noviça mais velha da casa. As meninas noviças do segundo estágio comem os pés, a cabeça, o fígado e as entranhas da ave; quando as noviças sênior “comem”, podem comer o sangue e mais tanta carne até estufar a barriga. As tripas não são dadas às noviças, mas são jogados para os porcos. Além da carne, os grãos secos de feijão, amendoim ou milho devem ser fornecidos, ou então um pagamento equivalente (85 centavos em 1957).

Além disso, a família da noviça deve fornecer duas garrafas de banha de porco que é passada então no corpo da noviça, junto com o pó vermelho.

A noviça passa os oito dias em repouso aprontando o seu enxoval para casar (tshiluvhelo), com um faixa de grãos (tshifunga), os cordões de algodão (mifhunga) que penduram na cintura, e o thahu amarrada atrás, representando um bebê e também o tonsure “da gravidez” .

Somente as nobres usam o thahu. Nos rituais, ela permanece o tempo todo com o thahu.. Quando a noviça remove o avental e o thahu, seus pais pagam ao líder (dono da cabana ou Zelador) uma taxa (Cr$3.00 em 1957)

Cada estágio do Vhusha do povo dura seis dias ao invés de oito dias e oito noites, como o das nobres.

Um dia depois de findo os 8 dias do estágio, a noviça é levada à sua casa, onde sua família deve oferecer o mingau para todas as meninas. Cozinham um mingau mole de farinha fina de milho (vhukhopfu) e água, que é chamado vhuteteha. Deve ser bem cozinhado e a dieta não deve conter nenhuma refeição pesada (vhuse). (Comida de Muzenza!)

Este mingau é servido ao menos em oito pratos de madeira (ndilo), das quais sete são para as meninas mais velhas e um para a noviça, que deve comer sozinha a menos que haja outra do mesmo grau dela. Em quatro dos pratos o mingau é servido em tiras, ao comprido (mikonde), e nos outros quatro é servido em formas redondas (mabumbulu). A noviça come somente o último.

Quando se graduam do muhulu, as meninas do povo usam uma saia enfeitada (tshirrivha) que deve ser da pele de cabra,(o bicho de 4 pés sacrificado durante o orô?) mas são às vezes de pele de carneiros (depende do(a) dono(a) do mutuê, como é para nós do Candomblé. Observem que não têm kizila com carneiro. Após a reclusão inicial em suas casas, vão com um presente de feixe de lenha para entregar às suas Mães do ritual, que no começo do muhulu cortaram o seu cabelo no estilo (chamado thotshi) (tosa, Catular) no estilo .

Estágio 2 : U latha latha mathava= limpeza da lama

O segundo estágio marca o final das restrições (kizila) com o sal. Embora as meninas sejam responsáveis para cozinhar para as noviças e devam fazer todas as coisas que as “mais velhas” exigirem, não apanham nem estão sujeitas às outras humilhações do Estágio 1, nem ficarão totalmente nuas para qualquer dança do ritual.

São chamadas agora pfunzi (professor), e ajudam na instrução daquelas que estão na primeira fase, muhulu.

Durante este estágio, a noviça é presenteada por sua “mãe de ritual” (Mãe Pequena) uma pele recortada da pele de cabra ou de carneiro, que usará como uma saia e que pode ser usada como um capote sobre ela para se cobrir em publico. Isto é chamado - -mavu.

Quando sair para a rua, deve cruzar os braços e manter abaixada sua cabeça.(Como as muzenzas) A próxima vez em que usará o tshirivha será quando estiver de resguardo do seu primeiro bebê; usará no ombro enquanto espera que o cordão umbilical da criança caia para o rito de apresentação do bebê (Blacking 1964b:17).

Há evidentes distinções no modo de vestir das meninas grduadas (midabe).
Na ida para o banho no rio, aquelas no primeiro e segundo estágio, usam saias de pele e caminham na frente, encurvadas e com os braços dobrados.
Atrás delas vão as graduadas, que usam como vestimenta dois panos, um como um casaco e o outro como uma saia. Na parte de trás da fila estão aquelas que terminaram seu terceiro estágio; usam cobertores e carregam o alimento especial que as noviças prestarão atenção quando as mais velhas comerem para aprender como se come.
Pelo caminho as graduadas cantam o muulu, a canção especial que anuncia que os novatos estão saindo para a rua, em que agitam o lábio inferior com os dedos da mão direita. (como fazem os índios e os angoleiros do Brasil)


Quando as noviças terminam o muhulu, aquelas que fazem a segunda etapa graduam-se automaticamente. Para elas o tabu do sal é suspenso, e podem uma vez mais conversar com os rapazes. Não há nenhuma celebração especial, porém passam a cozinhar as refeições do ritual das noviças. Em algumas regiões, usam mantas ou cobertores bem melhores que as saias de pele.
Estágio 3 : Tshikhwakhwatho (-khwakhwatha = Fim)
O Tshikhwakhwatho não é obrigatório.

A garota que tenha completado o segundo estágio pode fazer o DOMBA e casar-se sem ter atendido ao terceiro estágio do Vusha. Se vierem ao Vhusha para o terceiro estágio será como o dzikhwakhwathi, vêm principalmente para testarem seu grau de instrução e assistirem as aulas.

Embora se diga às vezes que uma menina que faz a terceira etapa do Vusha está azarada se não estiver noiva, a khomba ya mutshelukwa (a menina casadoira que se atrasa para cumprir os períodos), eu encontrei muitas que vão por uma terceira vez, especialmente naquelas áreas onde o Vhusha acontece freqüentemente e não em intervalos de quase um ano. Além disso, isto parece ter-se tornado agora mais comum porque as negociações da união estão atrasando freqüentemente por causa da ausência do futuro marido que vai procurar trabalho em outras localidades.

Há um outro incentivo geral, à parte do interesse particular que algumas meninas podem ter na iniciação: Se uma menina vier ao Vhusha após ter passado seu segundo estágio, é indicada como companheira de ritual para uma noviça. Será chamada “mãe da vhukomba” ( ganha o status de khomba (conselheira) , e ela dará uma nota ao aproveitamento da noviça durante os rituais.

Como pode ser observado, as meninas saem de suas casas, ficam reclusas, apanham despidas, são beliscadas, pichadas, forçadas a gritar e se humilhar; ficarem molhadas sem poder se enxugar, são privadas do alimento e do calor de um fogo, pintados com a argila branca, manchada com a banha e pó vermelho ocre, acordam mais cedo para acordar as meninas mais velhas mais tarde quando estiver tudo pronto enquanto elas descansam, e, ainda têm que manter as despesas e os custos da obrigação.

Tudo isto é feito para mostrar que “uma criança está crescendo”; sem dúvida são as noviças o centro das atenções, embora sejam completamente passivas e privadas da personalidade.

Durante sua segunda estada no Vhusha, elas passam a ser , e mais tarde, são gradualmente preparadas para assumir maiores responsabilidades sociais o que se espera de meninas casadoiras (khomba) e de mulheres casadas.

Ainda tenho as duas etapas já traduzidas, com canções, filmes de curta mostrando as danças, as representações, o Tshikanda e o Domba... nessas é que vcs vão ver como temos tudo ... não precisamos pedir nada a ninguém, a nossa cultura é riquissima, milenar!. Vamos verificar tambem que, se estamos distanciados dos rituais angola/congo , foi por acidente de percurso e não porque sejamos pobres culturalmente e não tenhamos fundamentos somente bantu... isso não.

Fiquem em paz

Dandarê




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