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Tópico: SINCRETISMO
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 Postado em 13/12/2005 9:42:00 AM

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Mais um texto para facilitar a compreensão da nossa jhistória

SINCRETISMO


Por Sergio Ferretti

Sincretismo é palavra para muitos considerada maldita, que provoca mal estar em muitos ambientes e autores. Diversos pesquisadores evitam mencioná-la, considerando seu sentido negativo, como sinônimo de mistura confusa de elementos diferentes, ou imposição do evolucionismo e do colonialismo. O Dicionário de Aurélio Buarque de Holanda apresenta cinco sentidos desta palavra. O primeiro deles como “reunião dos vários Estados da Ilha de Creta contra o adversário comum”. Como explica Canevacci (1996: 15): “Dizia-se, de fato, que os cretense, sempre dispostos a uma briga entre si, se aliavam quando um inimigo externo aparecia”.

Segundo o antropólogo holandês André Droogers (1989) o termo sincretismo possui duplo sentido. É usado com significado objetivo, neutro e descritivo, de mistura de religiões, e com significado subjetivo que inclui a avaliação de tal mistura. Devido a essa avaliação muitos propõem a abolição do termo. Droogers informa que o termo sincretismo sofreu mudanças de significado com o tempo e que a distinção entre a definição objetiva e subjetiva tem raízes históricas. Na antiguidade significava junção de forças opostas em face ao inimigo comum, de acordo com o primitivo sentido político apresentado pelo Dicionário do Aurélio. A partir do século XVII, tomou caráter negativo, passando a referi-se à reconciliação ilegítima de pontos de vistas teológicos opostos, ou heresia contra a verdadeira religião. Hoje no Brasil este sentido encontra-se muito difundido.

Embora alguns não admitam, todas as religiões são sincréticas, pois representam o resultado de grandes sínteses integrando elementos de várias procedências que formam um novo todo. No Brasil, quando se fala em religiões afro-brasileiras pensa-se imediatamente em sincretismo, como “aglomerado indigesto” de ritos e mitos, ou como “bricolagem” no sentido de mosaico as vezes incoerente de elementos de origens diversas” (Pollak-Eltz, 1996: 13). Costuma-se atribuir também o termo sincretismo em nosso pais, quase que exclusivamente ao catolicismo popular e às religiões afro-brasileiras. Mas o sincretismo está presente tanto na Umbanda e em outros tradições religiosas africanas, quanto no Catolicismo primitivo ou atual,
popular ou erudito, como em qualquer religião. Consideramos que o sincretismo pode ser visto como característica do fenômeno religioso. Isto não implica em desmerecer nenhuma religião, mas em constatar que, como os demais elementos de uma cultura, a religião constitui uma síntese integradora, englobando conteúdos de diversas origens. Tal fato não diminui mas engrandece o domínio da religião, como ponto de encontro e de convergência entre tradições distintas.

No campo das religiões afro-brasileiras, diversos dirigentes e militantes, sobretudo os mais
intelectualizados, tendem atualmente a seguir a estratégia de condenar o sincretismo. Esta atitude defendida por alguns há tempos, difundiu-se entre nós principalmente após a realização, em 1983 na Bahia, da II Conferência Mundial da Tradição dos Orixás e Cultura. Desde então alguns líderes bastante conhecidos das religiões afro-brasileiras passaram, a condenar o sincretismo afro-católico, afirmando não ser hoje mais necessário disfarçar as crenças africanas por traz de uma máscara colonial católica.

O movimento de reafricanização difundido sobretudo no sul e que atualmente se expande no Brasil, critica e combate o sincretismo afro-brasileiro procurando uma pureza africana ou a volta a um africanismo primitivo. Ocorre algumas vezes, uma verdadeira “guerra santa” de combate ao sincretismo, visto como atraso e aceitação da dominação colonialista escravizadora.

Em alguns grupos de culto afro-brasileiros e mesmo entre estudiosos destes grupos nota-se, pelo menos nos últimos quinze anos, em grau diversificado, e, em várias regiões, a preocupação em negar ou ocultar vestígios exteriores do catolicismo numa “cruzada” contra o sincretismo. Visitando o salão de danças de um terreiro de candomblé, um pesquisador nos mostrava desenhos de orixás nas paredes, explicando que antes ali estava cheio de quadros de santos, e que ele insistiu que fossem retirados, para evitar a confusão entre orixás africanos e santos católicos.

Esta confusão seria um dos pontos centrais da polêmica. Pessoas mais intelectualizadas, que atualmente participam em diversos níveis de diferentes segmentos das religiões afro-brasileiras, preocupam-se em afastar a confusão entre santos e orixás[3]. Esta ambigüidade que alguns “puristas” pretendem evitar, encontra-se entretanto mais difundida na periferia dos cultos afros do que entre seus participantes mais ativos. A identificação ambígua entre santos e orixás, que perturba líderes e intelectuais ligados aos cultos afro-brasileiros, a nosso ver existe mais na cabeça de intelectuais que falam do povo do
que nas práticas populares.

No Maranhão, por exemplo, se diz que, na Casa das Minas (Ferretti, S. 1996), alguns voduns são devotos ou têm “adoração” por determinados santos católicos. Com isso constata-se que há uma distinção entre o vodum e o santo. Note-se que esta devoção não ocorre com todos os voduns[4] . A devoção ou adoração de um vodum a um santo, não implica na confusão ou indistinção entre ambas as entidades. Os devotos dos voduns e dos santos não confundem um com o outro.

Provavelmente no passado, esta devoção teria se originado da estratégia de aceitar a dominação, como forma possível de sobrevivência numa sociedade opressora. Atualmente esta estratégia não se faz mais necessária numa sociedade pluralista, em que se discutem direitos das minorias, como bem o expressam diversos líderes de movimentos negros e de comunidades afro-religiosas. Mas para a maioria, antigos esquemas mentais permanecem e não mudam com facilidade de um momento para outro. Já ouvimos líderes religiosos afirmarem que não retiram imagens de santos católicos dos terreiros para não serem
confundidos com os crentes.

Em trabalho anterior (Ferretti, S. 1995), mostramos que o sincretismo está presente em grupos de cultos afro-brasileiros muito tradicionais como a Casa das Minas[5]. Constatamos que o sincretismo não se opõe à tradicionalidade ou à africanidade do tambor de mina do Maranhão.

Convém lembrar que, no imaginário e na expressão artística afro-brasileira, os orixás costumam ser caracterizados com atributos de santos católicos, quase todos brancos, como por exemplo o guerreiro romano, pelo qual Ogum é representado em muitos candomblés. Vários outros orixás são também caracterizados assim[6]. Além disso o calendário da maior parte dos cultos afro-brasileiros, como não podia ter sido diferente, é construído basicamente em cima do calendário ocidental cristão[7].

A maioria dos estudos sobre sincretismo, realizados entre nós nos anos quarenta e cinqüenta, apresentavam quadros comparativos da identificação de sincretismos entre santos e orixás em diferentes regiões do Brasil e nas Américas. Apresentavam também esquemas comparativos tipo: “jeje-nagô-muçulmi-banto-católico-espírita”, etc. Estes quadros e esquemas, largamente utilizados por estudiosos no passado, cedo se esgotaram e caíram de moda, uma vez que de fato explicavam pouco e de forma esquematizada, sem penetrar mais a fundo a complexidade do problema. Serviam principalmente para tentar identificar o que se considerava a procedência e o funcionamento exterior do sincretismo afro-católico entre santos e orixás[8].

Existe evidentemente no Brasil uma tendência favorável aos estudos sobre o sincretismo, que podemos identificar em diversos autores[9]. A campanha de combate ao sincretismo que alguns líderes e intelectuais querem entretanto difundir, reflete mentalidade autoritária e inquisitorial de segmentos intelectuais excessivamente preocupados com pureza teórica, e com rigor teológico. Toda religião como toda cultura constitui fenômeno vivo, dinâmico, contraditório, que não pode ser enclausurado numa visão única, cartesiana, intelectualizada, petrificadora e empobrecedora da realidade.

Deve-se evitar a tentativa de ridicularizar o sincretismo de praticantes mais simples dos cultos afros e de outras religiões populares, que muitas vezes trocam pedaços de palavras de ladainhas e orações em um latim estropiado, mas conservado com orgulho em inúmeras festas populares de todo o Brasil. Como o latim vulgar da Idade Média, o nagô, o jeje e outras línguas usadas na diáspora africana, também se modificaram e se misturaram por razões fonéticas e outras. Variações fonéticas usadas popularmente não devem ser encaradas como obscurantismo ou ignorância e ridicularizadas, como às vezes acontece.


É evidente que hoje não se admite o uso de termos preconceituosos como crendices, superstição, feitiçaria, bruxaria e ou expressões ultrapassadas como animismo e fetichismo, que foram empregados com freqüência por estudiosos no passado e continuam sendo difundidos pelos meios de comunicação ao se referirem às religiões de origem africana, visando negar-lhes seu caráter religioso específico. O termo sincretismo, no sentido objetivo (Droogers, 1989) entretanto, se distingue daqueles termos preconceituosos e não possui conotação valorativa, a não ser a que lhe é atribuída pelos que não gostam de utilizá-lo.

Não concordamos que se deva simplesmente negar ou esconder o sincretismo, dizendo que foi um fenômeno que só funcionou no passado e hoje está em desaparecimento. Pode ser até que no futuro o sincretismo afro-católico venha a se reduzir, por exemplo na identificação de exterioridades entre santos e orixás. Mas no momento atual, não se pode negar sua existência, por se pretender ou desejar que ele desapareça, por refletir aspectos que são hoje considerados por alguns como obscurantistas. Esta estratégia de querer “tapar o sol com a peneira”, no fundo pode até ser prejudicial às tentativas de superação do sincretismo, refletindo intolerância religiosa que não está de acordo com o espírito das religiões africanas.

O sincretismo afro-brasileiro foi uma estratégia de sobrevivência e de adaptação, que os africanos trouxeram para o Novo Mundo. No Continente Africano, nos contatos pacíficos ou hostis com povos vizinhos, era comum a prática de adotar divindades entre conquistados e conquistadores. Foi uma estratégia de sabedoria que pode ser entendida no primeiro significado da palavra apresentada no Dicionário do Aurélio: “reunião de vários Estados da Ilha de Creta contra o adversário comum”. Alem disso, na própria África é sabido que diversos povos receberam muito cedo influências cristãs, mesmo antes do tráfico de escravos ter se tornado mais intenso.

FIM

SERGIO FERRETTI é Antropólogo e professor da Universidade Federal do Maranhão




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