HÁBITOS E COSTUMES dos TCHOKWE
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Tópico: HÁBITOS E COSTUMES dos TCHOKWE
Dandarê
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Local: Salvador -Bahia - BA - BrasilSexo Feminino
 Postado em 18/01/2006 4:53:00 PM

MINEKENU JIPANGI

Bem meus irmãos já que não temos com quem conversar, pois os usuários deste fórum apenas "visitam" e não postam nada, o que até já provocou revolta manifestada em um dos tópicos... resolvi que, de minha parte continuarei postando para que os "curiosos" leiam. Pelo menos o trabalho de acessar o nosso site será recompensado com instruções sobre a nossa cultura.

HÁBITOS E COSTUMES


I- INTRODUÇÃO


Com este trabalho é nossa intenção explorar e desenvolver um elemento da cultura tradicional, que nos é posto à reflexão por Alfredo Trony no seu Livro "Nga Muturi".

Trata-se de um dos domínios do parentesco real da cultura tradicional, que prevaleceu e ainda prevalece nas sociedades que a etnografia observa.

A descrição desta temática, baseia-se na análise de uma situação concreta, por nós vivida e conhecida através dos testemunhos dos mais velhos guardiães da tradição oral das sociedades tradicionais. Esta situação vivida, enquadra-se nos princípios de organização social das populações de Angola, mais precisamente da Lunda-Norte.

Aproveitamos a oportunidade para examinar o nosso ponto de vista sobre a protecção da situação no tempo, ou a sua oralidade para proporcionar uma melhor compreensão da cultura através dos tempos.

Esta característica está bem patente no livro de Alfredo Trony, em que se relata a lembrança de Nga Muturi "... de uma mulher a quem chamava mama com as mãos na cabeça chorando bem triste... e que pelas conversas que ouviu no caminho soube que o tio tinha sido condenado no juramento, e para pagar o crime a fora buscar à mama pela lei da terra que obriga os sobrinhos a pagar os quituxi dos tios... Depois entregaram-na a um preto muito grande e que a levara para Luanda... e que ficara sendo a mucama do senhor... e como a experiência da vida vai bem, e compara a sua existência na libata com a que leva agora...".

II- RELAÇÕES TIO/SOBRINHO (A)


Chama-se avunculato (avunculu) a relação particular existente entre o tio materno, também designado "tio uterino" e os filhos de sua irmã, os seus sobrinhos, nas sociedades matrilineares ou de predominância matrilinear, em que o/a sobrinho/a faz parte do grupo de parentesco do tio materno.

Considera-se que esta prática remonta desde um largo período anterior ao da história escrita, chamado pré-história, no qual predominavam as formas colectivas de vida e que deram origem ao direito materno, baseado na filiação uterina, face à impossibilidade de se determinar a paternidade em famílias grupais.

Este parentesco entre o tio uterino e os seus sobrinhos manifesta-se principalmente pela autoridade do tio sobre o/a sobrinho/a uterino/a, chegando mesmo a exercer o direito de o/a empenhar. Por outro lado, tem muitas vezes especiais responsabilidades para com ele/a, responsabilidades que caracterizam as relações pai/filho em regime patrilinear, como por exemplo, iniciar a preparação do sobrinho para a sucessão ao trono, procurar-lhe mulher e, de uma maneira geral, cuidar da sua educação.

Na Vila de Cassanguidi, Província da Lunda-Norte, a nossa experiência tem como oradora a anciã Nday "Mukunze (mulata)", que assumindo a sua responsabilidade de guardiã da tradição oral da sociedade matrilinear do "mwanangana" Ngunza Kawona, transmitia à sua neta as referências da cultura da sua linhagem. Essa passagem de testemunho fazia-se no período de férias grandes, em horas de lazer e à sombra do totem "Mwaby", símbolo de pureza, de poder, de solidariedade, de concórdia e de paz.

Na sociedade tradicional da anciã Nday "Mukunze (mulata)", o lazer enquadra-se como um espaço privilegiado de aprendizagem, em que de forma lúdica se aguça a inteligência dos mais novos inculcando-lhes valores, e em que se proporcionam momentos de conversa amena ou diálogo entre o emissor/orador e o receptor. Por meio do lazer, o receptor tem também a oportunidade de absorver hábitos de saber estar entre os mais velhos e sobretudo, de "saber ouvir", e manifestar predisposição em assumir o compromisso de mais tarde passar o testemunho à geração seguinte.

Como não se escolhe uma árvore qualquer, a própria figura do totem onde se abrigam para conversar, é em si mesmo símbolo da cultura tradicional que deve ser preservado no imaginário da linhagem, de geração a geração, como espaço ao qual se recorre para se evocar "os espíritos" dos antepassados que vêm em auxílio, trazendo protecção aos seus.

Essa experiência, complementada pelo testemunho dessa anciã, permite-nos a descrição dos seguintes aspectos relacionados com o avunculato:
• o tio uterino tem o direito de empenhar ou entregar o/a sobrinho/a uterino/a como "escravo/a" caso seja condenado em algum juramento e não tenha possibilidade de pagar a multa ou pena aplicada, que é sempre em dinheiro ou outros bens de valor;

• em caso de doença e sem recursos para suportar as despesas medicamentosas prescritas pelo curandeiro, o tio uterino também tem o direito de empenhar ou entregar o/a sobrinho/a uterino/a como "escravo/a";

• o tio materno tem a responsabilidade de arranjar mulher para o sobrinho ou marido para a sobrinha; geralmente trata-se de união preconcebida entre primos; cabe também ao tio a responsabilidade de fazer os deveres relacionados com pedidos e entrega de alembamento, ou então, é ao tio uterino a quem se faz o pedido e entrega de alembamento da sobrinha uterina;

• o tio uterino só confia os segredos da tribo perpetuados pelos respectivos mwathas tradicionais ao seu sobrinho uterino, futuro sucessor ao trono;

Em situações de empenhamento ou de entrega, as probabilidades de recuperação dos/as sobrinhos/as foram sempre quase nulas. As mães acabam por perder os seus filhos, resignadas, para sempre.

A instrução, por exemplo, era em função do sexo, quer dizer que aos rapazes estava reservada instrução diferente da que se dava às raparigas.



III- CONCLUSÃO



Constitui característica fundamental da cultura o fato de que, embora permaneça a sua natureza conservadora, ela muda realmente com o tempo e de lugar para lugar.

Entre os fatores que podem proporcionar a ocorrência de mudança no comportamento social e consequentemente na cultura, podemos citar os regimes, as catástrofes naturais, as epidemias, as crises, as guerras, as migrações enfim, uma série de fatores histórico-sociais que podem contribuir para o surgimento de alterações significativas nas condições de vida de uma sociedade.

A novela "Nga Muturi" dá-nos um entendimento de análise que nos possibilita entender a sociedade tradicional como um valor a defender para o reencontro da nossa identidade cultural e nacional.

O livro "Nga Muturi", conquanto de autoria de um europeu, serve de lição para todos aqueles angolanos que desprezando as nossas tradições, buscam apenas nas concepções alheias da vida e do mundo, as soluções para os nossos problemas, que deviam ser encarados de forma universal a partir duma concepção local e iminentemente africana.

"Nga Muturi", levanta também a problemática da noção da igualdade que parece apontar, não apenas para os direitos dos membros da família, mas de todos os indivíduos, mulheres e homens e, se necessário, contra as restrições imputadas pelas famílias por causa de qualquer ideia comunitária preconcebida quanto aos papéis dos seus membros.


É inaceitável, por exemplo, que uma mãe perca os seus filhos porque é o irmão que define o destino deles, e que a ela se negue o direito de manifestar-se contra práticas desumanas em nome da cultura. Mesmo sendo a linha materna a determinar o grau do laço de consanguinidade, no fundo quem mais sofre com todas as situações que se engendram à volta das sociedades matrilineares é a própria mulher.


(*) Esta contribuição é um excerto da tese do curso de ciências sociais da Dra. Maria Karaje, com base no livro "Nga Muturi", de Alfredo Trony. A Dra. Maria Karaje, é licenciada em ciências de educação e Linguística português, docente da Faculdade de Letras/UAN, e Directora no Conselho Superior de Ciência e Tecnologia.

Fiquem em Paz

Dandarê

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