A LINGUA KIMBUNDU
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Tópico: A LINGUA KIMBUNDU
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 Postado em 05/09/2005 6:01:00 PM

A língua kimbundu

Rui Ramos*

O kimbundu é a língua da região de Luanda, Catete, Malanje e as áreas de fronteira no Norte (Dembos - variante crioula kimbundu/kikongo) e no Centro (Kuanza Sul - variante crioula kimbundu/umbundu). É falada por mais de um milhão e meio de pessoas.

Faz parte da grande família de línguas africanas a que a partir do século passado os europeus convencionaram chamar Bantu (bantu significa «pessoas», e é plural de muntu. Em Kimbundu mutu designa «pessoa», com o plural em atu).

Estes apontamentos foram elaborados com o intuito de ajudar todos aqueles que manifestam preocupação em conhecer os entrelaçamentos da língua portuguesa com as línguas africanas. Neste caso, o kimbundu foi uma das línguas de África que mais conviveu com o português, pelo menos desde o século dezasseis até à atualidade.

Penso ser a primeira vez que na Internet aparecem apontamentos de uma língua africana falada num PALOP.

Para a elaboração destes elementos gramaticais rudimentares não foi usada qualquer obra de referência. Utilizei somente os meus conhecimentos pessoais.

1 - Regra geral

Ao contrário de muitas línguas europeias, o Kimbundu caracteriza-se pela prefixação na formação do género, dos tempos e pessoas verbais.

As palavras concordam entre si pelo prefixo, o que confere à língua grande musicalidade e ritmo.
O dikamba diami dia-mu-zeka (O meu amigo está a dormir)
O makamba mami a-mu-zeka (Os meus amigos estão a dormir)
Muxima uami (O meu coração. Note-se a concordância mu — u, a regra seria mu - mu, mas não a musicalidade)
Frase simples:
Eme ngabiti ku mbanji ia dibata die (Passei perto da tua casa)

- O verbo kubita está no passado (ngabiti). No presente seria ngibita.

- A partícula ku aqui não é a desinência dos verbos, mas sim «perto» ou «dentro», mas sem pormenorizar. Tem menos força que mu (dentro de, com especificação). Mas muitas vezes ku e mu usam-se consoante a concordância rítmica.

- Por corruptela, o português vulgarizou kubata para designar a casa dos angolanos. Mas ku bata ou ku dibata significa «em casa».
«Casa» também pode ser inzo (pl. jinzo). Assim: inzo iami (a minha casa), jinzo jietu (as nossas casas), jinzo jiami (as minhas casas), jinzo jia (as casas deles)
- Mbanji ia (perto de — repare-se na concordância «mb» «i». Não podia ser de outra maneira)
- Dibata die (tua casa — die aqui refere-se a «teu, tua» e por isso o som é mais aberto do que o diê referido a «seu, sua»

2 - Pronúncia e sons

Em Kimbundu os sons são abertos, com algumas excepções («uê»).
Regra geral não há acentos. As palavras são normalmente graves.
«s» é sempre «ss»
«z» é sempre «z»
«c» é quase sempre representado por «k»
«g» é sempre «g» e nunca «jê» que, em kimbundu é sempre representado por «j»
Não há som «rr», quando muito, em algumas regiões, «r» muito fraco (como em «conversar»).

3 - Classes de nomes

Há em Kimbundu várias classes de nomes, com distintas formas de plural.

A) MU — A
Só se aplica a pessoas
muxiluanda (primitivo habitante da ilha de Luanda) — axiluanda
muhatu (mulher) — ahetu (plural irregular por não poder haver dois sons «a» seguidos)
mona (filho) — ana («mona» é aglutinação de «mu+ana»)
mubika (escravo) — abika muadiakimi (velho sábio) — adiakimi

B) MU — MI
O mesmo prefixo, desde que não se aplique a pessoas, forma plural diferente
muxima (coração) — mixima
mulembu (dedo) — milembu
muxitu (mata) — mixitu
mundele (branco) — mindele
mutue (cabeça) — mitue

C) DI — MA
dikamba (amigo) — makamba
diala (homem) — mala
dikolombolo (galo) — makolombolo
dikota (o mais velho) — makota
diaku (mão) — maku

D) KI — I
kinama (perna) — inama
kilumba (rapariga) — ilumba
kima (coisa) — ima kifuba (osso) — ifuba
kimuezu (barba) - imuezu (barbas)

E) MP, ND, NG, MB, etc — JI
São nomes de origem estrangeira.
Note-se que o «m» e o «n» iniciais antes de consoante nunca se lêem. A sua função é nasalar a consoante.
No singular, a palavra seguinte deve começar por «i»: mpange ietu (o nosso companheiro); tata ie (o teu pai); mama iami (a minha mãe); nja iami (o meu pénis).
Muitas vezes utiliza-se o singular como plural, mas a palavra seguinte vai para o plural: mpange jietu (os nossos companheiros), ngulo jiami (os meus porcos)
ndungo (picante) — jindungo
mpange (companheiro) — jipange (a nasalação cai)
ngulo (porco-leitão) — jingulo
mbolo (pão) — jimbolo
henda (saudade) — jihenda
sabu (provérbio) — jisabu
nvunda (raiva) — jinvunda
tata (pai) — jitata
sanji (galinha) — jisanji
ndanji (raiz) — jindanji
ngandu (jacaré) — jingandu
mbua (cão) — jimbua (jímbua)
nja (pénis) — jinja
hombo (cabra) — jihombo («h» aspirado)
F) KA — TU
O prefixo ka designa o diminutivo
kangombe (boizinho) — tungombe (boizinhos)
kasanji (galinha pequena) — tusanji
Kahombo (cabrinha) - tuhombo (cabrinhas)
Kalumba (rapariguinhas) - tulumba (rapariguinhas)
Kandenge (rapazinhos) - tungembe (rapazinhos)
Kanzamba (elefantezinho) - tunzamba (elefantezinhos)

G) Plurais irregulares
Não há regras precisas. Já vimos muhatu/ahetu
DI — ME
disu (olho) — mesu

4) Verbos

A) Geral
Todos os verbos, no infinito, têm a desinência ku
Kuala (ser), Kuala ni (ter), Kubonga (apanhar), Kuia (ir), Kuiza (vir), Kudia (comer), Kukalakala (trabalhar), Kusanga (encontrar), Kuloa (odiar), Kuzola (amar), Kutunda (sair)

B) Pronomes pessoais
Para se conjugarem os verbos, tal como nas outras línguas, utilizam-se os pronomes pessoais que, em muitos casos, se sutentendem:
eme
eie
muene
etu
enu
ene

C) Pronomes possessivos (usam-se com prefixos concordantes com os nomes)
uami (o muxima uami - o meu coração; o dikamba diami - o meu amigo; o muhatu uami - a minha mulher; o inzo iami - a minha casa)
ue (o tata ie - o teu pai)
ue (o inzo ie - a casa dele)
tuetu (o ixi ietu - a nossa terra)
nuenu (o mbiji ienu - o vosso mês)
a (o mona-a-ngulu a - a leitoa deles -- «mona-a-ngulu» significa literalmente: «filho de porco»)

D) Presente do indicativo
Tome-se o exemplo simples do verbo kuala (ser)
(eme) ngala
(eie) uala
(muene) uala
(etu) tuala
(enu) nuala
(ene) ala
Há aqui uma concordância «lógica». Na primeira pessoa do singular o prefixo do verbo é sempre «ng». As outras seguem os prefixos do pronome (note-se: muene uala. Podia ser «muene muala», mas o «m» cai, para tornar o encadeamento «mais leve»).
-Verbo kukala ni (ter)
ngala ni, uala ni, uala ni, tuala ni, nuala ni, ala ni


NOTA: O verbo ter em kimbundu expressa-se sempre como «ter com...»:
ngala ni nzala (tenho fome), ki ngala ni makamba (não tenho amigos)
-Verbo kuiza (vir)
ng

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