UM POUCO SOBRE AS yANDA
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Tópico: UM POUCO SOBRE AS yANDA
Dandarê
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 Postado em 16/08/2005 8:23:00 PM

Um pouco sobre as YANDA


*Texto, originalmente intitulado "A Alegoria da Kianda e O Olhar Melancólico de Pepetela", publicado nas ACTAS DO 5Q Congresso de Lusitanistas. Organiza<;ao de T F. Earle. Texto apresentado no 5Q Congresso, realizado em Oxford, de 1 a 8 de setembro de 1996. Oxford; Coimbra : Ed. Universidade de Oxford; Universidade de Coimbra, 1998. pp. 1437-1443.

Em Angola, o culto às Yanda (plural de Kianda, divindade do mar) sempre existiu, secretamente, mesmo após a colonização, sendo uma prova de resistência do imaginário mítico africano. As ianda são entidades reguladoras de tudo que se relaciona ao oceano. Segundo Ruy Duarte de Carvalho, cativam-se pelas pessoas, velam por elas e pelas águas, manifestando-se, de acordo com as pesquisas feitas por esse Antropólogo e poeta, de formas diferentes: de lençóis de luz sob as águas, for mando feixes de fitas coloridas; patos nadando; de pombos sobrevoando as praias, a de crianças gêmeas brincando, entre muitas outras.

Kianda, embora more no mar, também está na terra. O embondeiro é sua árvore predileta, assim como outras árvores, como a mafumeira que aparece no texto de Pepetela, e nas regiões ricas em petróleo.
Seu poder é ilimitado; só obedece ao Deus Criador. Ela rege as marés, as vagas, os peixes, a pesca. Gosta de ser lembrada, retribuída, homenageada. Se a esquecem, se enfurece e retém os peixes, tornando o maré bravia e ameaçadora. E, segundo a tradição angolana, responsável pela escassez ou fartura dos alimentos vindos do mar.

Quando enraivecida, lança seu grito, enviando doenças, fome e mortes. Por isso, pescadores lhe fazem oferendas, geralmente um banquete anual em praias afastadas da Ilha de Luanda. Esses cultos (os kakulus, do verbo akula [quimbundo]=crescer, visa ao aumento da produção de peixes) são fechados, dirigidos por velhos Kimbandas (feiticeiros) e praticados em locais desertos, próximos ao mar, em praias onde haja um embondeiro ou uma mafumeira. Nesses cultos, é tocado o mbendu, instrumento musical de bambu que serve a invocação das ianda. Toalhas brancas são estendidas no chão com comidas, bebidas; há sacrifício de porcos, galinhas, cabritos. Os pescadores dançam e não pescam durante o Kakulu. Também guardam silêncio sobre o ritual praticado, condição para que Kianda se alegre e atenda aos pedidos de fartura. E geralmente associada ao arquétipo da Mãe D’água, a fêmea maternal e, ao mesmo tempo, sensual para a qual convergem os desejos inconscientes do povo.

De acordo com Virgílio Coelho, em estudo sobre a Sociedade Luandense, em especial sobre as populações Túmúndòngo - que habitam as ilhas e o platô de Luanda - e os povos de língua quimbunda, a Kyàmdà é um "gênio da natureza" criado por Nzambi (Deus) e se diferencia do mito da sereia, cujas origens se encontram na cultura ocidental de tradição greco-romana. Segundo o referido antropó1ogo, esses "seres fantásticos" não podem ser confundidos. Os mitos de Kyàndà, Kítútà ou Kìxìmbì pertencem ao imaginário quimbundo e tem suas origens em épocas remotas, referentes as primeiras migrações dos povos bantu que vieram do leste do rio Kwàngu e chegaram à região do rio Lúkàlà, onde se fixaram e, para isso, fizeram pactos com os "gênios da natureza".

A difusão da tradição oral desses povos se fez do interior para o litoral, a medida que foram ocupando diferentes territórios: primeiramente a região do Lúkàlà; posteriormente, a do rio Kwanza; e, finalmente, a da costa do Oceano Atlântico e a das ilhas situadas na orla marítima de Luanda.

A lagoa de Kianda, na tradição angolana, era chamada em quimbundo Dizanga dia muenhu cujo significado era "lagoa da vida", fonte de força criadora e reservatório dos mitos primordiais.

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Espero que apreciem o texto,

Dandarê


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