POR QUE REVISAR NOSSOS PROCEDIMENTOS ...
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Tópico: POR QUE REVISAR NOSSOS PROCEDIMENTOS ...
Dandarê
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 Postado em 27/02/2006 9:45:00 PM

POR QUE REVISAR NOSSOS PROCEDIMENTOS ENQUANTO RESPONSÁVEIS PELO CANDOMBLÉ ANGOLA/CONGO


Feridos em seus brios, magoados, muitos se sentem ofendidos com o achincalhamento, principalmente quando os Ketus “apelam” e dizem que o Angola NÃO TEM CULTURA, que a CULTURA BANTU É POBRE, que os bantus eram ignorantões, que o nosso Candomblé de angola é Umbandão (?)... etc...etc...

Aqueles que sofreram na pele os agravos, resolveram reagir. “Botaram a boca no mundo” e... claro, muitos angoleiros ouviram as “trombetas” e seguiram. Assim, foram engrossando as fileiras... Mergulharam nos estudos, nas pesquisas, nas investigações sobre a cultura bantu e descobriram que “debaixo do angu tinha carne”!!! e que carne!!! Linda e rica, a cultura dos nossos antepassados...

Nas escolas e nos livros, costumamos estudar apenas a história de um povo africano: os egípcios. Porém, na mesma época em que o povo egípcio desenvolvia sua civilização, outros povos africanos faziam sua história, inclusive o povo bantu.

Este povo habitava o noroeste do Continente, onde atualmente são os países Nigéria, Mali, Mauritânia e Camarões. Ao contrário dos bérberes, povos nômades do deserto do Saara, os bantos eram agricultores. Viviam também da caça e da pesca. Conheciam a metalurgia, fato que deu grande vantagem a este povo na conquista de povos vizinhos. Chegaram a formar um grande reino ( reino do Congo ) que dominava grande parte do noroeste do continente.

Viviam em aldeias que eram comandadas por um chefe. O rei banto, também conhecido como manicongo. Este cobrava impostos em forma de mercadorias e alimentos de todas as tribos que formavam seu reino. Manicongo gastava parte do que arrecadava com os impostos, para manter um exército particular que garantia sua proteção, e funcionários reais. Os habitantes do reino acreditavam que o maniconco possuía poderes sagrados e que influenciava nas colheitas, guerras e saúde do povo.

Nesse contexto, cultuavam seus deuses com ritos próprios, específicos, mas que numa breve análise observam-se evidentes similaridades entre os cultos das nações que originaram o Candomblé. ESTA É QUE É A REALIDADE

Os povos africanos tinham uma facilidade muito grande em aceitar, em copiar, em por em prática, o que julgavam importante e relevante para melhor qualidade de vida deles. Nessa perspectiva, “milongavam” “sincretizavam” seus costumes a partir de diversas circunstancias.

Os berberes, por exemplo, eram povos nômades do deserto do Saara. Este povo enfrentava as tempestades de areia e a falta de água, para atravessar com suas caravanas este território, fazendo comércio. Costumavam comercializar diversos produtos, tais como : objetos de ouro e cobre, sal, artesanato, temperos, vidro, plumas, pedras preciosas etc.

Costumavam parar nos oásis para obter água, sombra e descansar. Utilizavam o camelo como principal meio de transporte, graças a resistência deste animal e de sua adaptação ao meio desértico. Durante as viagens, os bérberes levavam e traziam informações e aspectos culturais. Logo, eles foram de extrema importância para a troca cultural que ocorreu no norte do continente.

Outro exemplo que pode ser citado com muita propriedade, são os soninkés que habitavam a região ao sul do Deserto de Saara. Este povo estava organizado em tribos que constituíam um grande império. Este era comandado por reis conhecidos como caia-maga.
Viviam da criação de animais, da agricultura e da pesca. Habitavam uma região com grandes reservas de ouro. Extraíam o ouro para trocar por outros produtos com os povos do deserto (os bérberes).

A região de Gana, tornou-se com o tempo, uma área de intenso comércio.Os habitantes do império deviam pagar impostos para a nobreza, que era formada pelo caia-maga, seus parentes e amigos. Um exército poderoso fazia a proteção das terras e do comércio que era praticado na região. Além de pagar impostos, as aldeias deviam contribuir com soldados e lavradores, que trabalhavam nas terras da nobreza.

Ora, é perfeitamente natural que esses povos, apesar de povoarem regiões umas distantes das outras, aprendessem uns com os outros. Isto porque havia uma interligação constante, fosse pelo nomadismo, pelo comércio como também pelas guerras, já que constantemente estavam disputando as melhores situações naturais para inseri-las nos seus limites geográficos.

Entretanto, todas essas questões culturais, não ficaram estáticas esperando para um dia serem resgatadas como muitos pseudo-pesquisadores pensam.

Hoje em dia muitas dessas questões já não são mais relevantes, muitos deuses já nem são lembrados, quanto mais cultuados! Muitos ritos perderam o sentido de se fazer...

Enfim, OS TEMPOS MUDARAM! LÁ NA ÁFRICA E AQUI!

O Candomblé é um legado dos africanos que vieram para o Brasil como escravos! Não é simplesmente um legado africano! É um legado dos escravos africanos que vieram para o Brasil, desde o século XVI, porém mais tarde, a liturgia foi revisada várias vezes, resultando na milonga que temos.

Como fizeram os africanos escravizados,os seus descendentes também não aceitam passivamente não serem identificados pela sua etnia, pela sua tribo. Isto fica mais difícil de aceitar, quando os próprios irmãos ketus se colocam como “melhores” e “mais fundamentados na religião” do que os angola/congo!

Assim na tentativa de se apresentar com uma identidade mais evidente, mas inconfundível, alguns adeptos do angola/congo resolveram mostrar o que tinham descoberto.

Até aí, tudo é muito compreensível, louvável e aceitável. Entretanto as coisas começam a se desgringolar, quando os defensores do que se convencionou chamar erradamente de “resgate”, não usaram a técnica adequada para levar em frente uma idéia tão revolucionária como esta:

REVER OS PRINCIPIOS, REVISAR OS COSTUMES DE UMA RELIGIÃO DE MAGIA, CUJA TRADIÇÃO É A TRANSMISSÃO DOS SEUS FUNDAMENTOS, PELA ORALIDADE! EM QUE SOMENTE PELA PRESENÇA, PELO TOQUE, PELA PALAVRA, PELO HÁLITO, PELO SUOR É QUE SE PASSA NGUZO, AXÉ, HAMBA.

No afã de instruir de ensinar de repassar, esqueceram que o livro atende apenas à questão da instrução, da informação... Mas, e a força da magia? E o hamba? Eo axé? E o nguzo?

Além disso temos outras questões menores, mas nem por isso menos importante:
Tudo o que se faz no Candomblé, antes se consulta o oráculo. E o que é usado em todas as vertentes ou nações, é o Jôgo dos Odus, que é regido por deuses nagôs. Se os deuses nagôs, os Orixás, são tão diferentes dos deuses bantus, os Minkissi, saberiam aqueles atender à vontade, aos rituais, as comidas destes?
O que é relevante ou imprescindível resgatar? E o que for, cabe ser praticado na sociedade atual?

Quem estaria apto para realizar a feitura de um Nganga, Advinho ou Curandeiro, dentro da perspectiva angola/congo?

São perguntas que é preciso responder, antes de se propor mudanças.

Acho válido continuarmos com a proposta de INVESTIGAR A CULTURA DOS NOSSOS ANTEPASSADOS. Acho que assim aprimoraremos a nossa identidade cultural como Candomblé de Nação.

Mas... Não creio que algum angoleiro pense em voltar no tempo e fazer um candomblé puramente de angola ou congo ou qualquer outra nação bantu.

Por outro lado não penso em rejeitar a minha nagotização, enquanto ela estiver inerente aos nossos fundamentos. Afinal foram os nossos antepassados que assim quiseram e acharam que era o melhor. Se não, um neto de Maria Neném, filho de Mameto Kizunguirá, com 56 anos de casa aberta, registrada na Federação do Culto Afro, como é a casa de meu Pai, linda e maravilhosa não seria nagotizada também, nesse aspecto (dos fundamentos).

NAGOTIZAÇÃO ENQUANTO MILONGA SIM, PREVALENCIA NAGÔ NÃO

A nagotização nos terreiros de angola é uma decorrência como foi a sincretização em todos os terreiros , Yorubás e Angola/Congo. Mas, quando Mãe Stela levantou a bandeira com determinação a maioria seguiu atrás. Foi uma verdadeira guerra, mas enfim todos entenderam o que ela queria dizer.

Eu pretendo sim, ter uma casa com os requisitos do revisionismo histórico que estamos vivendo, porque é justo! É a minha história que eu estou fazendo a partir de agora; é a história da minha casa e de meus filhos e nela cabe perfeitamente os meus estudos, as minhas investigações e a minha nagotização, no que for imprescindível para manter a caracterização da minha raiz, porém quanto menos melhor, e sem prevalência.

Hei de saber conviver honrada e pacificamente com todos esses elementos históricos, principalmente porque não "estou comendo pelas mãos dos outros" eu mesma estou empenhada em investigar.

Eu entendo meu Pai quando ele diz que não vai “mudar nada” porque não tem nada errado. Mas não é mudar, é aprimorar, ajustar, utilisar o que é nosso.

E VOCÊS MANOS, O QUE PRETENDEM FAZER?


Que Nzambe nos ilumine!

Nzambi ubana o muondona, o atu asola o jinjila
(Deus é quem dá sorte, as pessoas escolhem o caminho)

Fiquem em Paz

Dandarê



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KAMBAMI
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 Postado em 11/03/2006 2:12:00 PM

Makuiu forum

Realmente mana, devo lhe dar meus parabéns e rezo a Nzambi que ilumine seus caminhos, para que você os faça com muito amor.
O que você expôs, é exatamente o que eu penso, com a vantagem de você ter uma familia, conviver com ela, eu infelismente, fiquei desgarrado, mas nunca deixarei ou permitirei que apaguem minha herança, pois nasci Angola e morrerei Angola.
Tenho sim varios amigos que me amam também apesar de serem de outras Nações, até me deram um nome como uma dijina para melhor me aceitarem no meio deles, recebi como presente "Ògúnyànkin", que em dialeto Yorùbá significa, Ògún não abandona o bravo, mas não é a mesma coisa que minha dijina, essa teve todo um cuidado de meu avô ao observar-me dentro do culto e entender que apesar de eu ser um falador, falava em nome dele, defendia seus ideáis, pois eram os mesmo que você expôs e defende como também são os meus, tentei de todas as maneiras me chegar a uma casa de Angola que consiga me dar todo o carinho que tive de meu avô, de minha kota, enfim, tenho dentro do possível estudar sobre minha Nação, conhecer ela em seus mínimos detalhes, e com isso muitas vezes esbarro em dúvidas, achei esse forum atravéz de uma comunidade também de Angola, onde prefiro não descrever o que houve, mas Tata Toindé sabe muito bem, e o porque eu entrei em sua defesa.
Graças a Nzambi conheci pessoas maravilhosas que tem me auxiliado assim como você mana, que não se nega a dar ou explicar uma dúvida, não se nega a mostrar o caminho certo, pois como pessoa sou um homem formado, mas como Munzenza, preciso de atenção, ensinamentos, uma criança não anda sozinha sem o auxilio de mais velhos.
Mana só postei para dizer: Vá em frente, não deixe nada impedir o seu destino, e termino com duas frases de minha querida jipange Katulembe.

"Etu, ku ubeka uetu, ki tu kima etu, maji ni kisangela tutena ima ioso".
Nós, sozinhos, não somos nada, mas com união podemos todas as coisas.

"Kixikanu kiabeta o kota, kiná kibaba o muxima uetu, o utu uetu uakidi".
Religião é aquela que toca a nossa alma, a nossa verdadeira identidade.

Kandandu
Kambami



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Dandarê
Membro Pleno

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Registro: 19/07/2005
Local: Salvador -Bahia - BA - BrasilSexo Feminino
 Postado em 14/03/2006 8:57:00 AM

Mano Kambami

Não tens idéia do que senti quando li vc dizer: "O que você expôs, é exatamente o que eu penso, com a vantagem de você ter uma familia, conviver com ela, eu infelismente, fiquei desgarrado, mas nunca deixarei ou permitirei que apaguem minha herança, pois nasci Angola e morrerei Angola".

Mano!!! é muito forte!!! mas me deu uma idéia de solidão!!! sem sua familia de santo... para mim seria tão triste qto como vc se sente mano. Outro dia um amigo meu se surpreendeu quando eu disse que a minha família de santo era para mim tão importante qto a familia carnal. Mas é. Da mesma forma sinto pela nova familia que trouxe a minha norinha. Da mesma forma são as familias dos meus cunhados e cunhada trazidas para o meu convivio pelos meus irmãos carnais...

É para que serve viver mano... para ter amigos... Mas NÃO É FACIL. É PRECISO MUITA RENUNCIA, MUITA PACIENCIA, MUITA COMPLASCENCIA.... mas vale a pena.

AGORA VC TEM A NÓS... já é bem vindo em nossos corações.

Fique em Paz

Dandarê


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