RAIZ DO TUMBENCI
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Tópico: RAIZ DO TUMBENCI
Dandarê
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 Postado em 27/01/2006 1:52:00 PM

MIMENEKENU JIPANGI

Eu vou postar a entrevista que fiz com meu Zelador, a qual anteriormente já postei em outro forum.

Solicito aos descendentes da raiz de Maria Nenem que façam o mesmo em suas inzo com os seus respectivos Zeladores, ou no caso de serem os Dirigentes da mesma, postem suas biografias, a fim de que possamos nos conhecer melhor. O QUE ACHAM? - AGUARDO.

ENTREVISTA COM JURACI XAVIER PASSINHO, TATA RIÁ NKISI DO UNZÓ KUNA NKISI TUMBENCI MALAULA.


Relizada em 08 de fevereiro de 2005, por Kota Mutarerê

DADOS DO ENTREVISTADO:

Juraci Xavier Passinho, nasceu em 18 de fevereiro de 1934, na Cidade de Coaraci - Bahia, filho de Lucio Xavier Passinho e Rosalva Nogueira dos Santos.


1. ENTREVISTADORA: Conte-nos os momentos importantes de sua vida que culminaram com a decisão de fazer o santo.

- As minhas primeiras manifestações de Entidades espirituais começaram quando eu tinha de 15 para 16 anos de idade. Procurei uma Mãe de Santo que residia na mesma localidade onde eu morava e ela me disse que aquela situação que eu estava vivendo eram avisos de que eu precisava fazer meu santo. Logo comecei a me arrumar e com 16 anos completos, em 1950 entrei para fazer obrigação.

Dezesseis anos certinho, estou com 71 anos de idade e 55 anos de feito no santo. A Mam´étu não existe mais, porem o barracão ainda existe, em ruínas, mas está lá para se ver. A casa chamava-se Terreiro Pedra Branca Aldeia do Ecutá que Muclariá que Muclarioci da Nação de Amuraxó; fica situado na serra, entre Coaraci e Almadina, Interior da Bahia. O nome civil da minha primeira mãe de santo era Ana Vitória de Santana e sua Digina era Aruacamba; muitos a conheciam como Aruacamba de Zazi. Era uma pessoa digna, muito amorosa com seus filhos, muito humilde, simplória mesmo, mas de muita força no santo.

a) O Senhor foi recolhido sozinho ou teve outros irmãos na mesma obrigação?

- Fui recolhido num barco de 16 (dezesseis); todos já se foram; eram pessoas muito puxadas de trabalho, gente que trabalhava em fazenda muito desgastadas da saúde.

b) O Senhor pode citar outros Tatas que foram iniciados, primeiro no Amuraxó e depois no Angola/Congo?

- Posso sim, porém eles não existem mais, kufaram: Sr. Manduca, Joaquim França, Nascimento, Gregório Viana.

c) O Senhor poderia nos falar sobre a Nação de Amuraxó, explicando por exemplo, se raspa, se pinta, se tem Digina, se quando morre tem Kufunda, Mukondo... etc?

- Na verdade não é uma Nação é uma raiz, vertente da Nação Angola, conforme Mam´etu Kizunguirá dizia. A raiz de Amuraxó nasceu das mãos dos escravos bantus, yorubanos, Geges que cultuavam deuses africanos. É difícil afirmar qual a procedência mais específica deles lá da África, pois a maioria era filho de escravo liberto cuja identidade, nesse sentido, já era duvidosa.

O numero de adeptos foi aumentando porque os resultados práticos eram bons para todos. Faziam-se muitas curas, se tinha muito resguardo com as coisas, era um candomblé de muita força! Espero que os que herdaram estejam mantendo seus ritos em sua totalidade.

Na feitura de Nkisi, eles raspam metade do mutuê, a partir da moleira, se faz orô, tem Digina, tem a peninha sagrada do poder da magia no mutuê, eles usam a pena do Uteleno (saqué na lingua de Amuraxó). Tudo é igualzinho como no Angola porque é uma vertente do Angola, é das águas do Angola.

Tem Angorossi, tem Caiango, Amuchacato, Quibuco, tudo tudo que tem no Angola e quando o iniciado kufa tudo será retirado como se deve fazer com todos os que receberam adoxu. Inclusive, se foi a Mãe ou o Pai de Santo que faleceu, os filhos têm que retirar a mão dela ou dele do mutuê, no caso retira-se a mão do vumbe e seguem.

d) Como foi a vida aqui em Salvador, no inicio longe de sua Mãe Vitória? Logo depois ela Kufou, não foi?

- Como eu não tinha Terreiro de Candomblé, meus assentamentos ficavam no Terreiro de minha mãe e eu trabalhava a domicilio com muita dificuldade.

Depois de uma forte chuva que caiu aqui em Salvador a minha casa caiu. Só não morremos todos porque eu tive um aviso: “saia que a casa vai desabar”; aí, nós corremos para o meio da rua e logo depois ela caiu. Felizmente, um Senhor que tinha muitas casas de aluguel me ofereceu uma casa para eu ficar com a minha família até ajeitar a vida.

Na verdade eu relutei muito a implantar um unzó kuna Nkisi e já tinha passado da hora... os santos estavam me cobrando uma resolução e eu sem querer aceitar.

Em 1972, muitas coisas aconteceram em minha vida. Eu já tinha comprado um apartamento aqui em Salvador e consegui reformar ele todo. Reservei um espaço para colocar o meu santo e fui conversar com minha Mãe Vitória. Ela já estava muito velhinha, com 107 anos, caducando, doente e não tinha mais condições de me entregar cargo e meu santo. Então ela mandou Dona Caboquinha de Kavungo, cuja Digina era Kamburamatona e Seu Manduca prepararem tudo direitinho. Desta maneira, quem me entregou a cuia foi Mam´etu Kamburamatona com a autorização dela. Para mim é como se tivesse recebido diretamente dela.

Em 1975, aos 110 anos Mãe Vitória kufou.

e) quando o Senhor tirou a Mão do Vumbe com Mameto Kizunguirá?

- Logo que passei o resguardo pelo falecimento de Mãe Vitória em 1976.

Na verdade desde 1974 que eu já andava na casa de Mam´etu Kizunguirá, ela já cuidava de mim, apenas me orientando, porque além de eu estar em Ilhéus, distante da minha Mãe Vitória, ela mesma já estava caducando, muito velhinha. A primeira obrigação que Mam´etu Kizunguirá fez em minha cabeça foi depois que Mãe Vitória kufou, para tirar mão do vumbe. Foi quando eu comprei esta terra em mata virgem e comecei a construção da roça.

f) como foi essa transição do Candomblé de Amuraxó para o Candomblé da Nação Angola? Como é feito essa mudança, faz o santo novamente?

- A minha segunda Mãe de Santo, Mam´etu Kizunguirá, Mãe Maçu, como eu e muitos a chamava, considerava a mesma Nação. Tanto que ela não chamava nação de Amuraxó, ela chamava Raiz de Amuraxó e dizia que o Candomblé de Amuraxó era da Nação de Angola. Ela me raspou para fazer o vonda mutuê, mas não me puxou como muzenza no barracão; raspou dentro da camarinha.

3. ENTREVISTADORA: Dizem outros filhos de santo que Mameto Kizunguirá tinha um gênio de difícil convivência, parece que o Senhor não pensa assim, não é?

(nesse momento, tanto a esposa quanto a filha interferem dizendo ao mesmo tempo: “hum... ela não era mole”!. Queria mandar em tudo... até em mim que não era filha dela (diz a esposa).

a) como era a sua relação com ela? Houve algum período de afastamento da parte do Senhor?

- Nunca. Para mim ela foi divina e maravilhosa. Sempre fui muito obediente e gostava muito dela porque era muito sincera; era sim sim, não não. Aquilo que ela designava eu fazia. Para mim ela não tinha defeito e a prova vocês têm olhando em volta: Tudo foi feito por ela; eu só faço engrandecer, embelezar!

Elas (a filha e a esposa) falam assim porque esse povo se queixa de tudo e não querem obedecer... só querem viajar, ir pra shopping. Nenhum de vocês, (e olha em torno) nunca me viram em restaurante ou shopping ou pela rua malandriando. Não bebo, não fumo, não jogo, nunca tive outra família, só tenho essas duas filhas com a minha mulher com a qual vivo há 54 anos. Ela, minha sogra, minhas filhas me ajudaram em tudo que tenho.

Tive ajuda em dinheiro de Sr José Cupertino, que Deus o tenha! Como você sabe, era o sogro de sua irmã. Eu nem acreditei quando ele me deu aquele cheque! Dois mil cruzeiros!!! Ele botou em meu bolso “tome aí para lhe ajudar na roça ”. Eu fiquei com o cheque no bolso o resto do dia... quando eu fui tomar banho que olhei o valor, não acreditei, gritei por Irani e me sentei! Foi a única ajuda que eu achei para fazer isto aqui, independente de trabalhos e obrigações. Investi todinho aqui e inaugurei a roça. Minha filha Vitória trabalhou tanto que quando a festa acabou ela baixou Hospital! (as lágrimas lhe vêm nos olhos).

b) quantos anos o Senhor conviveu com Mam´etu Kizunguirá?

- Ela morreu em 1986. Desde 1965, eu ainda morava em Ilhéus quando comecei a me aproximar dela. Gostava muito dela, e ela era muito atenciosa comigo, mas nunca fez nada de obrigação em mim. Portanto convivi 21 anos em paz com ela.

4. ENTREVISTADORA: Antes do seu, quantos Barcos a minha Vó recolheu? Quem eram os Muzenzas dos mesmos?

- Eu não participei de Barco porque eu fui pra ela tirar a mão do vumbe. Mas sei que ela fez centenas de barcos. O primeiro Candomblé dela foi na Rua Chile, depois mudou para o Engenho Velho, depois foi para o Pernambués e depois foi para o Caxundé, próximo de onde é hoje o Centro de Convenções. Quando ela kufou ela estava no Caxundé.

5. ENTREVISTADORA: Quais dos seus irmãos, conhecidos seus que levantaram Terreiro?

- D. Hilda – Mukalê (terreiro em Ilhéus); D. Benildes – Fumunã (terreiro em Paripe), Nidinha – Divuguiná (terreiro em Ilhéus)

6. ENTREVISTADORA : Dessas eu só conheci Mam´etu Divuguiná, por sinal que criatura boa!, animada, trabalhadeira, um amor de pessoa. Vejo falar muito de Mam´etu Mukalê, mas nunca a vi aqui. Por que?

- Elas são donas de Terreiro e talvez não queiram deixar na mão dos outros; Hilda, Mukalê é minha comadre, mas certos detalhes não são pra se contar assim não.

7. ENTREVISTADORA: o Senhor lembra os nomes dos seus “mais velhos” que ainda estavam vivos naquela época? Makotas, Kissarongombe, Tatas etc..?

- Lembro sim: Deuandalá, Sr. Manoel, que ajudou muito aqui. Ela tinha muita gente, mas não trouxe muita não. Ela era cismada, não confiava; quando o fundamento era grande como o que foi feito aqui, o trabalho era duro porque eram poucas pessoas que participavam. Tata Arnaldo, uma Senhora filha dela que mora em Sergipe atualmente, Julieta – Nanjeuá, Margarete. Agora não me lembro mais não, se eu lembrar eu lhe falo.

8. ENTREVISTADORA: Conte-nos sobre a construção deste Terreiro maravilhoso que o Senhor tem; desde o inicio até atualmente; suas reformas, crescimento etc:

- A terra foi comprada em mata virgem. Essa construção foi feita com muita garra, com muita luta, com muito trabalho. Não só dado pelo meu Nkisi como também do meu trabalho na Petrobrás. Levei 5 anos e oito meses construindo. Mas até hoje tem sempre uma coisinha pra acrescentar porque eu sempre sonhei com essa beleza que aí está! Ainda vou colocar uma caçamba de pétalas de rosas para Mamãe Dandalunga pisar no barracão!

Todos os assentamentos, inclusive os de Caboclo tudo foi feito por ela. Aquele assentamento de Njila lá em baixo, foi ela que fez. Nos a carregávamos de maria-cadeira até lá; ainda era mata-fechada, de madrugada, mesmo assim ela ia. Tudo aqui tem a mão dela, eu só faço conservar; muito bem conservado e graças a Deus não tenho do que me queixar. Ela foi uma pessoa que entrou aqui e me deu condição de sobrevier muito bem. Quem nos cria hoje é Dandalunga.

Nesses 5 anos de fundação, passamos construindo, fazendo os fundamentos nas fundações, nos pregos, nos cantos do terreno... e em todas as obrigações as pessoas que vinham ajudar, ficavam aqui passando o resguardo; ela não confiava que ninguém saísse.
Na firmeza dos dois barracões, dos Minkissi e dos Caboclos, e do roncó, a mesma altura que você está vendo do chão para cima, tem de fundamentos do chão pra baixo. As mesmas obrigações, você vai ter no seu Unzó que eu vou plantar com vida e saúde, nas graças de Mamãe Dandalunda e Seu Kitembo. (Faz reverencia aos dois Minkissi e todos os presentes o acompanham)

Em 1982 nós inauguramos este Terreiro com tudo nos seus lugares. Tudo que tem aqui, é da sabedoria e das mãos dela. Quando ela estava fazendo as obrigações uma energia diferente pairava no ar. Era uma força, uma coisa celestial que ela emanava e todo mundo era obrigado a abaixar a cabeça na presença dela; não que ela mandasse, mas a gente sentia a necessidade de respeitar de abaixar a cabeça, as vezes até de chorar. Eu tinha verdadeira adoração por minha Mãe. Eu acho que nem os filhos dela carnal, quis tanto bem e respeitou tanto ela como eu. (Aí o Entrevistado se emociona e chora).
Era um amor espiritual; muitos dos meus irmãos tinham medo dela, eu não, eu tinha muito respeito e adoração.

9. ENTREVISTADORA: Quem foi a sua primeira filha de santo e onde o Senhor usou a sua navalha pela primeira vez?

- Danda Kisimbi e Minongongo; uma de Dandalunda e a outra de Kavungo

10. ENTREVISTADORA: Quantos Barcos o Senhor já recolheu até hoje? Poderia citar o nome das pessoas e suas Diginas, por barco?

- Eu só raspei filho de santo depois que inaugurei o Terreiro. Nunca fiz questão de quantidade. Fiz apenas 8 barcos:
O 1º de 2, o 2º de 7, o 3º de 6, o 4º de 5, o 5º de 4, o 6º de 4, o 7º de 2 e o 8º de 2.

Todos têm suas obrigações registradas na Federação do Culto Afro, aliás como tudo que se faz aqui em casa relativo a obrigações de filhos de santo, eu registro na FENACAB. Eu lido com a cabeça das pessoas e amanhã ou depois se houver alguma necessidade de comprovar, seja o que for, está lá. É uma instituição antiga, fundada em 1946. Se é competente ou incompetente se atende ou não atende é outra questão. Mas é a única instituição juridicamente reconhecida pela sociedade para fazer o que faz. Além dos registros lá, eu tenho os meus registros aqui, meus livros de assentamento das obrigações que fazemos com os nomes, idade, endereço das pessoas, etc.

11. ENTREVISTADORA: O Senhor tem idéia de quantas pessoas já passaram por sua mão para dar Kibane mutue?
- Centenas, se puxar mesmo, já fiz pra mais de 1000, que estão espalhados por esse mundão aí afora, Portugal, Itália, Miami, passaram por aqui e fizeram essa obrigação mais conhecida pelo nome de bori.

12. ENTREVISTADORA: Quais os rituais que são cumpridos anualmente dentro do calendário deste Unzó?

- A festa da passagem de um ano pro outro: quando a gente dá comida a Njila, Nkossi e Kitembo; a Festa de Mamãe Dandalunda; a festa de Meu Pai Gomgobira, Tat´etu Beri, O Caruru de Assucena, e a Festa dos Caboclos, que o meu é Caboclo Eru, se eu não der ele quebra minha canela.
Além desse calendário anual, de 4 em 4 anos nós derrubamos um boi e uma novilha aqui no Terreiro. É uma festa linda!

13. ENTREVISTADORA: Existe algum ritual que o Senhor deixou de fazer, mas que é da origem da nossa Raiz? Se existe, por que?

- Tem sim: o fecha do Terreiro, que era feito na quarta-feira de cinzas e ficava fechado 7 semanas; passa a sexta-feira da paixão e só depois do sábado de Aleluia é que se movimenta com trabalhos de mutuê. Eu deixei de fazer por falta de assistência dos filhos, a festa de Seu Zazi com as passagens dos ibás dos Minkissi pela fogueira, na festa de São João. Essas festas ela fez comigo aqui, mas eu não continuei porque não ia fazer sozinho. Continuo fazendo a fogueira e faço há 29 anos.

14. ENTREVISTADORA: Quer dizer então que desde o inicio de nossa Raiz que existe muita ligação entre as festas da Igreja Católica e as festas do Candomblé, não é pai?

- Perfeitamente. Minha Mãe era muito católica. Naquele tempo o Candomblé era tido como seita. O sincretismo religioso com a Igreja era normal. Cada um sabia o que estava fazendo e para quem estava rezando. Após as obrigações de feitura levava-se os muzenzas em 7 igrejas e em 7 terreiros. As Mametus e Tatetus rezavam o terço, o rosário, acompanhavam as procissões... muita gente virava no santo durante as procissões. Ela estudou, acho que só o primário; mas naquela época o primário era muito forte, dava para a pessoa ficar muito conhecedora das coisas. Ela foi muito bem educada num Colégio de Freiras, o Colégio das Mercês. Ela conhecia e fazia alguns finos bordados, conhecia Geografia, História, gostava de conversar sobre essas coisas, era muito inteligente.

Um dia ela me disse assim: Juraci, (ela me chamava assim) se eu lhe pedir uma coisa você faz? – eu disse logo, faço sim minha mãe, o que é? Ela disse: quando você puder, faça uma igrejinha aqui e marcou o lugar. A igrejinha é aquela ali, defronte do barracão; fiz a pedido dela, inclusive a Padroeira é Santa Luzia, como ela queria. Porque o Terreiro da Mãe dela, Mam´étu Maria Neném, se chamava Terreiro de Santa Luzia, Tumbenci, Fé e Razão,(Cá te espero), o dela se chamava Terreiro de Santa Luzia, Tumbenci Filho, Fé e Razão; o meu era para se chamar Terreiro de Santa Luzia, Tumbenci Neto... mas aí a Federação do Culto afro-brasileiro cortou o sincretismo e pediu que eu mudasse para : Unzó kuna Nkici Tumbenci Malaula, Bandusi Zambi.

Lembamuxi tirou o “cá te espero”, com justa razão, porque parece acintoso e hoje em dia a frase seria considerada provocação, não é? Mas naquele tempo era para ameaçar mesmo, porque antigamente quando se falava de candomblé é como se fosse hoje drogas, maconha, cocaína, era uma perseguição, talvez até pior. Em 1930, no Governo de Coronel Juraci Monte Negro Magalhães, dizem que ele era feito no santo e era de Oxalá, foi que se melhorou a situação do Candomblé, porque antes se tirava licença na polícia.

Mas, do jeito como as coisas vão... o candomblé tem sido muito atingido pelos evangélicos. Eu mesmo sou agredido aqui na minha porta constantemente, só não é pior, porque eu sou brabo, boto pra fora e ainda dou uma mãozada pela fucinheira... jogo caderada na cabeça deles, jogo abô daqueles bem terrível em cima deles, jogo pemba... jogo duro mesmo com eles, se não... se é com outro mais manso eles já tinham me tirado daqui.

É minha filha, Deus é Amor, Nkisi é Amor, mas nem sempre se pode ser como você é, só amor. Por isso eu digo que o seu marido, o seu irmão, seu filho é que vão ter que tomar a frente nessas horas porque você é uma moça fina, educada, não vai jogar cadeira na cara dos outros.

Agora vejam só: aqui a Federação, o Apó Afonjá, a partir de Mãe Stela, combateram o sincretismo e lá na África, principalmente em Angola, cada dia se constrói mais igrejas e o povo continua com suas tradições de magia e vão para as igrejas, sejam católicas ou protestantes, e agora? Estão do mesmo jeitinho que a gente fazia aqui. Até quando morrem, depois do Mukondo o caixão vai para a Igreja... êta mundo de meu Deus!


15. ENTREVISTADORA: Dizem que o povo do Candomblé de Angola não tem identidade cultural e que nem a língua os angoleiros procuram manter e misturam Orixá com Nkisi, Yaô com Muzenza... O que o Senhor nos diz a respeito disto?

- É falta de doutrina dos Tat´etus e das Mam´étus de Nkisi. Eu ensino como aprendi: Oxum equivale a Dandalunda, mas não é identica, Ogum equivale a Nkossi, Oxalá equivale a Lembá... muitos filhos preferem falar o nome dos Orixás porque é mais comum aqui em Salvador, mas eles sabem como se chama em nossa língua, a que minha mãe me ensinou.

16. ENTREVISTADORA: Existe um movimento que está crescendo muito no meio do povo do Candomblé de Angola em todos os Estados onde se encontra angoleiros, que é a busca pelo resgate da cultura, da língua, dos ritos originais, da tradução das rezas do Candomblé de Angola/Congo. Eu mesma já vi fotos de rhum de Nkisi com as Muzenzas de rostos pintados como na África, Dandalunda com muitas pulseiras feitas de favas coloridas, por sinal belíssimas. Dizem inclusive que Oxum não é Dandalunda, que Ogum não é Nkossi e por aí vai... O que o Senhor acha disto?

- Eu acho que está certo, se tem condições de fazer, pode-se fazer. Seguir a África é voltar às origens. Mas quais seriam os ritos originais que os pesquisadores e alguns sacerdotes vão procurar lá? se o candomblé começou aqui? Na África, fica muito simples porque a grande maioria das pessoas da população são iniciadas; não no candomblé, mas no conhecimento da magia! As cidades, as ruas, as casas, as famílias são construídas e desenvolvidas dentro de um mesmo pensamento religioso. Quando se estabeleceu o Candomblé aqui no Brasil, se deixou ficar o que era indispensável; isso com relação aos ritos sacrificiais, as jinsaba, palavras mágicas que se inundaram de magia desde ancestralidade... mas o que podia ser milongado, substituído, alterado se deixou que ficasse assim como está. Tanto é que ninguém deixou de fazer santo porque não se realiza o “ NKITA”! Mas não se realiza da mesma forma, idêntica a da África ou das nossas primeiras feituras! porém você sabe que nós temos rituais sagrados com a mesma função que se obtinha com a realização do rito “NKITA”. A magia não vem pra mim idêntica ao que vem pra você. Não existe duas pessoas iguais e portanto não existem dois pais de santo iguais... Eu passo o meu nguzo (axé) para você que segura aí em você de um jeito diferente de como se afirma num irmão seu!!! Não é tudo igual, filho de santo não é feito em serie não! O que era feito antes não é feito agora, então a magia se transmuta. Não perde a essência, mas muda de figura, entende? Por isso é preciso muito cuidado com o que se quer buscar lá na África.

Mas é bom que fique bem claro para você, que é minha filha, que ainda é responsabilidade minha, mais minha mesmo do que sua, que tudo isso aí que você falou e que já vem falando a algum tempo, são apenas costumes, apenas cultura; isso aí você pode mudar na hora que você quiser se os seus Minkissi aceitarem que se faça em seu terreiro. A questão é a força para se fazer dentro desta religião, a magia! Como se solta um preso, como se prende quem tá solto, como se faz e se desfaz as coisas!!! Eu não fui a África para achar como fazer isso e você também não vai precisar ir porque eu estou aqui para lhe dar e a quem for obediente, respeitadora, como você é.

A língua você pode estudar e falar corretamente a que você quiser dentro do seu unzó e aqui mesmo. Você viu que Mãe Meam quer estudar o Kimbundo, não é?

Quem quiser vestir a rainha das águas de chita e sem anáguas, que vista, eu é que não visto. Quando ela pisou neste chão aqui pela primeira vez, quem sabe se no século XVI ou XVII as negras escravas roubavam das Sinhá o que havia de bom e do melhor para vestir a sua deusa! a sua rainha! agora que ela me deu e eu tenho não vou cobri-la de ouro? (O Entrevistado se emociona e chora).

Eu não tinha nada, nada mesmo, só amor no coração para minha mulher e minhas filhas, minha sogra, meus irmãos ... e hoje? Quando eu olho em volta, que vejo... eu nem acredito! O que Dandalunga tem me dado é muito: é saúde, é beleza em tudo que me rodeia, é alegria, filhos, dinheiro para eu aprontar a casa dela e receber meus amigos com minhas baixelas fartas de tudo do bom e do melhor... tudo foi ela quem me deu e vai ficar aí para vocês...pois uso por empréstimo.

Eu vou e vocês ficam: Kisanga plantou, a sua semente, a rama secou, mas a luz é recente... (cantou o entrevistado, melancolicamente). Era a zuela que sua Mãe cantou para ele no leito de morte.

Sua avó chamava a nossa Inquiciane de Dandalunga, com “g” e não com “d”, se agora as cartilhas de vocês ensinam com “d”, escreva-se com “d”. Mas quando forem contar as lendas dos Minkisi, do tempo em que eles viveram na Terra, vejam isso direitinho, porque ela nunca me contou e eu não sei nenhuma diferente das que os Ketus contam sobre os deuses africanos!!!

Nem os Jejes mais conservadores daqui do Brasil têm outras lendas para os seus deuses. Repare que eles têm deuses correspondentes aos nossos e aos dos Ketus e vice versa. Cuidado com essa afirmação para não ficarem inventando diferenças e lendas de Entidades que nunca foram cultuadas aqui no Brasil. E se não foram é porque não tinham que ser. MASSANGUA foi feito na cabeça de Miguel Arcanjo e é um dos nossos Minkissi mais antigos que eu vi zelar. Depois dele nunca mais vi ninguém ser feito de Massangua... por que? – são os resguardos minha filha, ninguém hoje em dia pode ficar guardando anos de resguardo em camarinha não!!!! Mas tudo evolui... não vem ele mas vem outro que dispensa algumas coisas e acaba dando para se fazer....é assim. Neste mundo nada se perde nada se forma, tudo se transforma, não é assim?

O Candomblé tem mistérios sim !!! mutuê das pessoas não é para se fazer experiência não!!! Se você fizer como eu lhe passar, eu garanto que dá certo como deu pra mim, seus irmãos e seus parentes carnais que fizeram santo aqui comigo. Fazer santo no mutuê dos outros, não é como na escola que se não fizer direito, volta para estudar mais, para aprender mais que passa de ano!... não; se errar, você pode aleijar, enlouquecer alguém, matar ou você mesma morrer. É como o médico de coração ou de cérebro ou de seja lá o que for... não pode errar.

Concordo que a nossa identidade seja mais caracterizada com a adoção das línguas bantas em nossos Unzós. Quem quiser estudar que estude e me ensine, porque eu mesmo não tenho mais cabeça pra estudo de língua não... Concordo que meus filhos queiram ficar atualizados de acordo com o seu tempo, escrever certo, pronunciar as rezas e as zuelas corretamente. Quanta coisa eu não faço mais, para poder me atualizar? A minha Mãe puxava as coisas bem africanas, agora hoje , se você for puxar pelos fundamentos africanos você não fica mais com filho de santo porque ninguém quer responsabilidade!!!

Não estou agravando a todos, mas, do que adianta eu ensinar certas coisas, se não vão aceitar as kzilas? os resguardos que vão ter que guardar, algumas dessas kizilas têm que ser guardadas para sempre e ninguém pode mais fazer certas coisas.

17. ENTREVISTADORA: Alguns Tatas riá Nkisi trabalham manifestados com Exus. Aqui neste Unzó não se faz festa de Njila, e, o Senhor nem seus filhos recebem esse Nkisi para trabalhar manifestado. Na realidade eu nunca vi nenhum filho desta casa manifestar, trabalhar manifestado ou mesmo festa de Njila, por que?

- Minha Mãe me ensinou que o mutuê que leva adôxu para assentar Nkisi, não pode passar Njila, e nem Njila é Nkisi para ser dono de mutuê. Se alguém está fazendo diferente e está dando certo, é porque receberam outros fundamentos diferentes dos meus. Em nossa nação Ciriaco fez um assentamento de Njila no mutuê de uma filha de santo dele. O negócio foi tão milindroso que até ele mesmo tinha medo do Njila. E a criatura não foi feliz. Para que isso? No meu modo de ver as pessoas devem fazer santo para terem paz, alegria de viver, saber suportar as adversidades da vida porque sabe que o santo está ali do seu lado. Não se faz santo para ficar rico, para ter poder sobre as outras pessoas, para matar os inimigos... nada disto. Se faz santo para equilibrar a vida, ajudar as pessoas, enfim cumprir a existência sendo útil a todos os reinos da natureza.

18. ENTREVISTADORA: Na qualidade de sua filha de santo, noto que o Senhor pouco sai daqui para fazer visitas, participar de eventos etc. Mas, sei que o Senhor de vez em quando aceita o convite para ir a festas de Candomblés. Quais os Terreiros de seus contemporâneos que o Senhor mantém uma relação de amizade?

- São vários, eu me dou bem com todos. Terreiro do Coqueiro Grande de Cocuazenza, Mãe Zuzu, tenho um carinho todo especial por ela, considero ela minha Mãe, considero muito a sua filha Talaqué. O Terreiro de Jisu em São Marcos, Terreiro de Seu Luis Sergio, no Alto do Peru, Terreiro de D. Helena e o de D. Benedita que ficam em Paripe. D.Chica, em Mata de São João, Terreiro de Jauá de Seu Laércio e outros que não lembro agora.

19. ENTREVISTADORA: É muito difícil os filhos permanecerem no mesmo Unzó para receberem a cuia, honrarem a sua casa de origem; o comum é se ver um Tata ou Mameto riá Nkisi com no mínimo duas passagens por casas diferentes, mesmo sem ter havido o falecimento do primeiro Zelador. O que Senhor acha disso?

- Eu sou contra, porque todos nós que temos nossos pais, sabemos que eles têm autoridade sobre seus filhos. Quando eles chegam das casas dos outros para a nossa casa é porque aprontaram por lá, ou vice-versa. A conversa é sempre a mesma, o Pai ou a Mãe de Santo é que não presta. Eu sei que tem gente de todo tipo aí metido a pai e mãe de santo e sei também que tem pai de santo de boa fama que escolhe muitas vezes uma filha de santo ou filho bom, para justamente com esse “pisar na bola”, como aconteceu com primeiro pai de santo da minha filha carnal. Mas, em regra geral isso não acontece é a desobediência do filho que o afasta da casa e aí eu sou contra. Mas, se ele quiser ir embora que vá, pois uma ovelha má bota um rebanho a perder.

20. ENTREVISTADORA: O que o Senhor diria a quem está entrando para fazer santo ou se confirmar como Tata ou Makota hoje?

- É muito bom ter seus filhos, seus Kissicaromgombe, suas Makotas, é muito bom; eu amo todos eles e o que eles tem que dizer de mim é sobre a minha malcriação, porque aquilo que eu não gosto eu falo e nem sempre tenho jeito de falar. Todo pai e toda mãe quer aprontar seus filhos bonitinho, perfumadinho para ir para o cinema, a praça, hoje ao shoppings não é? Assim mesmo sou eu, quero que vocês fiquem bonitinhos, perfumadinhos para seguirem o caminho de vocês.

Deixe estar Mutarerê que você vai voar!!! Eu vou fazer com você, o mesmo que a águia faz com seus filhotinhos: vou lhe empurrar e lhe soltar quando eu tiver certeza que você não vai cair... Eu já comecei, não já? Fique na sua que você não precisa de ninguém, sua fonte é esta aqui. Todo mundo lhe quer porque sabe que você é grande... eu sei de tudo... estou vendo tudo... mas eu lhe peguei pequeninha e sei que você ainda vai crescer muito mais.

21. ENTREVISTADORA: o que o Senhor aconselharia a um Tat´etu ou a uma Mam´etu riá Nkisi que está abrindo Terreiro?

- Que ame a Zambiapongo em primeiro lugar e aos Minkisi e todos os seus upanizetos (irmãos). Que cobre suas consultas e seus trabalhos porque fazer candomblé é uma religião que nesse particular de manutenção ainda é mais caro que as demais. Muilo (Vela), Mané puto (fósforo), Gavu (dendê), Maiaca (farinha) tudo é comprado. Ninguém mais faz nada na roça, todo mundo tem que cuidar de seus empregos. Os filhos de santo só sabem passar roupa com ferro elétrico, só compra vela de 7 dias para não acender todo dia; não se planta mais mandioca para fazer farinha para obrigação, não se tira dendê no taxo... tudo é comprado caro.

Além disso, na hora que o cliente precisa eu estou aqui, a postos, com minha casa estruturada para receber do varredor de rua ao gringo que me paga em dólar; tenho tudo na despensa e no gongá. Chegam aqui largando os pedaços, doentes por fora, por dentro e na mente. Eu paro toda a minha vida particular para me dedicar exclusivamente a quem necessita. Tem trabalhos que movimentam muitas pessoas; todas elas comem e bebem aqui, tomam banho fazem tudo aqui às custas do Terreiro sem se preocupar com outra coisa a não ser com aquele cliente. Njila come e bebe, Nkissi come e bebe, Caboclo come e bebe, Egum come e bebe. Quem vai custear as despesas deste HOSPITAL? Trabalhamos duro e muitas vezes com 7 dias o cidadão já está outro! A nossa vida não tem preço! Quem regateia podendo pagar, não valoriza a vida então para quê ele viver? Não cabe a você trabalhar de graça para quem não tem fé, não sabe lutar pela vida, não dá valor a vida.

A gente vai no jogo e vê: pode cobrar; e cobra. Acontece muito o jogo dizer para não cobrar e a gente ter que meter a mão no bolso para dar para eles... aí também tem que dar. Outras vezes a gente não é autorizado a cobrar, não cobra e recebe muito mais do que cobraria! Nkici é assim, minha filha.

As vezes a pessoa não tem e nem imagina que vai ter o dinheiro. Se tem fé mesmo, enfrenta e o dinheiro aparece e fica tudo quites. Com você mesmo, sempre não foi assim? Portanto, não tenham medo de cobrar! Só não aconselho a explorar, porque o Nkici dá tudo o que precisarmos, mas... se formos Sacerdotes e não marmoteiros.

22. ENTREVISTADORA: o Senhor acha que se pode viver do santo exclusivamente hoje em dia?

- Pode, e como pode, eu vivo do meu santo. Eu tenho uma aposentadoria pequena da Petrobrás, que eu trabalhei a vida toda como Radiologista e hoje esta só dá para eu pagar a luz e o telefone, quem me sustenta é Mãe Dandá. Não tenho ajuda do Governo nem do Município nem de político. Felizmente a água daqui é de poço cartesiano. Quando almoça pouca gente aqui , e 30, 40 pessoas. E tô perdendo para Maria Neném, que sustentava 72 pessoas no Terreiro dela... ela era capitalista? Empresária? Não; assim como Dandalunga tira ouro das águas pra me dar, Kavungo tirava das entranhas da terra para dar a ela.

Sei administrar bem o que eu ganho. Pouco ou muito, sempre as obrigações dos Minkissi estão em primeiro lugar! Nunca atrasei as obrigações do unzó, nunca!

Para a minha sobrevivência e da minha velha a nossa aposentadoria dá muito bem; a dela da Secretaria de Educação e a minha da Petrobrás. Minhas filhas estão casadas, todas duas têm boas casas que eu dei, os maridos cuidam delas direitinho.

A grandeza e o luxo daqui é nos santos! nos assentamentos, na roça como um todo. Aqui tem espaço e lugar para tudo. Não é preciso sair para botar ebó no meio da rua; tem ntoto para os diversos tipos de ebós e rio corrente também. Só quando é para despachar ou dar oferenda no mar é que temos que levar lá. Mas você tem braço de mar na sua roça não é minha filha? Pois é você ainda tem mais do que eu... (diz para Mutarerê)

A maior contribuição vem das consultas principalmente e dos trabalhos de ocasião.

Obrigação de filho de santo não dá dinheiro; todo mundo só faz santo aqui quando já está na pior; muitas vezes a casa é que tem ajudar. Quando melhoram de vida e reconhecem me ajudam, mas ninguém aqui tem obrigação de contribuir com nada imposto por nós. Os filhos dão quando querem e quando podem.

20. ENTREVISTADORA: Qual foi a sua maior alegria dentro do candomblé e qual foi a sua maior tristeza?

- A maior alegrai foi quando inaugurei esta roça e a maior tristeza foi quando minha mãe kufou.

21. ENTREVISTADORA: Agora nos fale um pouco da sua vida civil:
A) Quais as profissões que exerceu até dedicar-se exclusivamente ao Candomblé.

- Eu trabalhei em fazenda até os 16 anos, meu pai era fazendeiro. Fiz o santo, as coisas melhoraram eu fui para Ilhéus, trabalhei em lojas como caxeiro, depois fui trabalhar numa loja de tecidos; lá conheci a minha querida esposa, minha cara metade, casei e vivo com ela a 54 anos é a Mãe Grande do terreiro, Mam´etu Calembar de Kavungo.

Com ela tive duas filhas maravilhosas, todas duas são feitas: Mam´étu Mean Kalunga Cocoazenza, de Kaiá, a mais velha cujo nome civil é Vitória Regina; é a primeira Makota; o seu esposo, meu genro Ubiratan que é Tata Kukueto de Zambiapungo; de Vitória e Ubiratan tenho minha neta Laize, também Makota, Mona kuna Desi, de Dandalunda e minha outra neta (filha adotiva de Vitória) cujo nome civil é Luciene e sua Digina é Kamuquengue , de Mutalambô; tenho outro neto, o mais velho de Vitoria, Birinha que já foi suspenso para Tata.

Mam´etu Cambiara de Bamburucema, é minha segunda filha Jurani que será a minha substituta; o seu esposo Carlinhos também é Tata aqui do Terreiro, Tata Mutalembê. Os seus três filhos, meus netos ainda são menores.

Vivo para minha família, não bebo, não fumo não tenho gasto com outras despesas que não sejam a minha família e a roça aqui.. De vez em quando dou um presente as minhas netas, aos meus netos e assim a vida continua... Gosto muito de receber os amigos com mesa farta e com alegria.

21. ENTREVISTADORA; Meu pai, o Senhor é uma lenda viva para nós angoleiros: tem 55 anos de santo, conviveu 21 anos com Mam´etu Kizunguirá que foi a sua segunda Zeladora, portanto gostaria que o Senhor nos falasse de alguns assuntos dos antigos, como por exemplo da localização dos Terreiros de Maria Neném, do Viva Deus de Vô Feliciano e também de alguns aspectos que o Senhor conheça da vida dessas pessoas e que nessa conversa informal, o Senhor vá se lembrando mais de alguma coisa.

- O Terreiro de Miguel Arcanjo, que era da Nação de Amuraxó era no Bairro do Beiru, hoje chamado Tancredo Neves. Chamava-se Terreiro de Massangua. Em frente ao de Miguel Arcanjo ficava o de Maria Neném, o Terreiro Santa Luzia Fé e Razão. Eram amigos, quando ela recolhia barco ele ia visitar e levava balaios de frutas; porque antigamente era assim, os amigos visitavam os barcos recolhidos e ajudavam no que fosse preciso, mantimentos, frutas. Ambos se entendiam muito bem.

22. ENTREVISTADORA: Meu pai, quando o Senhor tornou-se filho de Mam´etu Kizunguirá, Maria Neném já não existia mais, não é?

- Perfeitamente, o que eu estou contando sobre os meus Kacurucaju é o que a minha mãe me contava. Que era uma pessoa boa, era feita de Kavungo, recebia quatro caboclas, Cabocla Kissanga e mais 3 irmãs dela; sustentava setenta e tantas pessoas na sua casa. Mãe Maçu adorava ela; quando falava nela, louvava a Deus, “Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo!” e depois é que falava o nome dela. Mãe Maçu me contava que foi em 1920 que ela bolou na casa de Maria Neném e foi raspada para Seu Zaze.

23. ENTREVISTADORA: Como foi essa historia de Mam´etu Kizunguirá ter sido feita antes de outro Nkisi meu pai?

- Ela contava que a sua mãe estando grávida dela, teve um grave problema de saúde, então ela entregou o bebê, ainda na barriga ao Velho. Quando o bebê nasceu era uma menina e teve convulsão. Com 4 anos rasparam ela de Ajaguná no Gêge. Mais tarde em 1920 ela bolou na casa de Maria Neném. Ajaguná, que em nossa nação cultuamos como Kavungo, não era o santo dela; ele tomou conta dela por uns tempos somente. O Santo dela era Zazi, Menso Zazi Dadivuguiná. Por ela ainda passavam três Caboclos: Sultão das Matas, Cabocla Morena e Caboclo Itaburanga. Cabocla Morena cantava assim: “Eu sou menina, Eu sou pequena, Eu sou Cabocla Morena”. Aquele Edifício que tem lá perto da casa de Manoel Pinto genro dela, lá em Pernambués e que pertence a família da mulher dele, se chama Edifício Itaburanga em homenagem a ele. Quando ele chegava, nós cantávamos assim:
“Seu Itaboranga, matou um pássaro de pena,
ele não mora longe, mora dentro da Jurema “

Quando ela recolhia os barcos que as muzenzas ficavam brigando, ele chegava cantando:“Eu fui na mata pra ver a sultana, Cheguei na aldeia das caboclas valentonas”... E cobria o cipó caboclo... naquele tempo as muzenzas desobedientes apanhavam! ...


24. ENTREVISTADORA: e quem teria sido a primeira Mãe de Santo dela no Gêge, hein pai?
- Ah! minha filha, não sei não. Mãe Maçu era assim, a gente perguntava uma coisa a ela e ela não queria responder, ela dizia:” hum hum, depois eu lhe respondo”; as vezes ela respondia, as vezes nunca mais. Quando a gente perguntava somente para ela responder sim ou não e ela achava que você merecia a resposta ela dizia: hum, “foi achim memo”. (Os presentes riram , minha mãe Irani sorri relembrando)

25. ENTREVISTADORA: e sobre Miguel Arcanjo meu pai, ele era filho daqui de Salvador?

- Sim. Ele era daqui de Salvador, do Beiru, do mesmo lugar onde ele fez Terreiro e que hoje se chama Bairro Tancredo Neves. Ele andou pelo Sul do Estado e lá ele fez esse povo todo. Fez muita gente por lá. Primeiro ele foi para Itajuipe, para a casa de Mestre Severiano Manoel de Abreu que recebia o Encantado Jubiabá. Por intermédio de Jubiabá ele foi fazer o Santo de minha primeira Mãe de Santo, Mãe Vitória.

Desde de 1910 que Mãe Vitória, Mam´etu Aruacamba de Zazi, tinha Terreiro plantado por Mãe Luiza, Yalorixá de Candomblé Lesé Orixá. Em1920 o Terreiro de Mãe Vitória foi muito perseguido, o tal Pedrito interditou o Terreiro dela. Depois então é que Miguel Arcanjo fez as obrigações dela na raiz de Amuraxó da nação Angola .

26. ENTREVISTADORA: Como era a Digina de Miguel Arcanjo?

- Era Massangua da Massanguana.

27. ENTREVISTADORA: Como é esse Nkissi pai?

- Dizem que é um Lembá. Como já disse, nunca mais vi ninguém zelar desse Nkici. Quando era para ele receber este Nkisi, ele ficava 9 dias vestido num chambre branco, recolhido, confinado numa casa de barro caiadinha de branco e se alimentava só de acaçá. Depois de 9 dias Massangua chegava. E tiravam esse cântico:

Massangua Orumilé,
Massangua Orumilá,
Irá Irá, Irá,
Massangua do Arirá.

Ele também tinha um Caboclo, se chamava Caboclo Gentil e cantava assim:

Sou eu Xororó do Xó
Gentil Damuraxó
Sou filho de Maduxó
Sou eu Xororó do Xó

28. ENTREVISTADORA: e O Viva Deus de Vô Feliciano? O Senhor conheceu Vô Feliciano não foi?

- Conheci muito Seu Feliciano. Quando eu passava para ir no Beirú, dava a bença a ele, ele sentadinho na porta do Terreiro. A doutrina que nós recebíamos antigamente, era que quando fosse preciso passar pela frente de qualquer mais velho, fosse de que nação fosse, era dever pedir a benção e a depender da hierarquia, bater a cabeça. Mas nunca convivi com ele dentro do Candomblé não.

29. ENTREVISTADORA: e Rufino, meu pai, eu já ouvi o Senhor falar várias vezes no nome dele, mas nunca prestei atenção para saber de quem ele era filho de santo.

- Era filho de santo de Miguel Arcanjo. Ele era de Dandalunga e a Digina dele era Omikilene Ouro da Samba. Onde você vir esses “Ouro da Samba, vem de do Tumbency que passou para o
Amuraxó de lá do Beiru... Depois eu soube que ele mudou de nação e fez santo no Gantois. Mas na casa de Rufino tinha o retrato de Miguel Arcanjo. Na casa de Rufino, na casa de Morena, e tem uma Ekedi de Rufino que mora lá no Alto do Peru, naqueles lados ali de Pai Luis Sérgio, a primeira entrada depois da casa dele; ela tem muito conhecimento da vida de Rufino; eu gosto muito dela.

30. ENTREVISTADORA: Nós precisamos ir lá, porque eu estou devendo uns esclarecimentos a um bisneto dele, que também faz parte do Ritos de Angola. E por que se fala que Rufino do pó vem da Raiz do Beiru? Beiru era o antigo nome do bairro Tancredo Neves não é isso?

- É sim, quem botou esse nome na localidade foi Miguel Arcanjo. Na verdade o nome era Beru e não Beiru. Ele tirou do nome de uma reza de camarinha: Acanuetetum, Ogune, Ogune, Bocó Bocó. Beru ano bequeji, inguê no averezoá. São Josane no acata acata; KOLODIÁ? Aí canta o Ocequecê... Mais tarde quando veio o governo de Tancredo Neves, Antonio Carlos Magalhães mandou mudar o nome para homenagear o Presidente. O povo de santo do Beru, era Miguel Arcanjo e Maria Neném. Rufino é parente nosso pela parte de Miguel Arcanjo.

31. ENTREVISTADORA: Hoje se discute que o Angola deixou que os Caboclos brasileiros penetrassem muito, que as zuelas nossas tem muita coisa em português e que os Ketus foram mais rigorosos e por isso são mais puros do que nós. O que o Senhor acha disso?

- Quando os Sudaneses chegaram aqui, os escravos bantus já falavam português. Eles já vivam aqui há mais tempo com os índios e os portugueses que dominavam todos, no Brasil e em Angola, enquanto eles só falavam Yorubá.

Os negros de Angola no meio dos maus tratos, muitos ferros e muitas marcas de ferro em brasa, foram formando laços de família com os brancos, com os índios e se adaptaram muito a nossa língua, e à religião católica.

Quando os Ketus resolveram organizar o culto afro para viabilizar que eles principalmente pudessem cultuar seus deuses aqui, os bantus já estavam muito aculturados aos costumes nativos e portugueses, não dava para esquecer tudo e ser puramente bantu, nem esquecer tudo e ser puramente brasileiro!

Já os Ketus não, estavam com a mente mais fresca, os Senhores já não eram os miseravões do inicio da colonização, os missionários já se levantavam a favor dos negros. Tudo foi mais favorável a eles.

Por isso, se hoje formos purificar mesmo, tem que se acabar com o candomblé antigo e começar tudo de novo. Quem vai querer?

O mais sensato é quem sabe mais, ir procurando ensinar a quem sabe menos a língua e seguir devagar para ver as possibilidades. Mas não acredito que se possa mudar muita coisa, mesmo porque fundamentos, quem tem não vai mudar.

Tecidos e modelos africanos, se encontra em todos os Candomblés de todas as nações. Rechelieux e anáguas se usa em todos os candomblés, não é identidade para ninguém, porque todas negras libertas usavam para mostrar seu poder aquisitivo. Se o Angola deixar de usar, vão dizer assim: vige, as muzenzas do Angola são feias, tudo de chita, sem anágua.... Quem quiser que bote suas chitas em suas filhas de santo, eu é que não boto, principalmente se for de Dandalunga.

Por que fazer candomblé com fundamento bantu africano num país miscigenado como o nosso, com a maioria da população contra nós?
- não vai ficar um no Terreiro com as kizilas! Já dizem que o meu candomblé é uma escravidão Colocar uma Kutunda bantu, requer a circuncisão nos homens e a clitoridectomia nas mulheres e, no mínimo 6 meses de camarinha!!!

Quanto aos Caboclos, temos que tirar o chapéu para os Caboclos.

32. ENTREVISTADORA: Porque conversam com a gente não é pai? Isso marca muito.

- Orixás e Minkisi também falam minha filha. Hoje inventaram que os Orixás não falam, que Inquice não fala apenas movimentam a cabeça. Os Inquices do Angola falam. O Zazi de Mãe Maçu falava, baixinho mas dava para entender. Não falava no meio do barracão como Caboclo, mas na camarinha não se chamava o erê para dar recado não, ele falava , transmitia perfeitamente a sua mensagem, o que estava certo e o que estava errado na casa. Falava na língua dele, mas falava.

33. ENTREVISTADORA: è um privilégio poder conversar assim com o Senhor meu pai. Eu ficaria aqui até... o dia amanhecer conversando ...

- O Entrevistado interrompe para acrescentar: Quando Mãe Maçu estava no leito de morte, eu fiz algumas perguntas a ela, então ela me disse assim: meu filho, eu vou e você fica. Aí ela cantou , já com a vozinha arrastada ela cantou...
Kissanga plantou, a sua semente
A rama secou mas a luz é recente

34. ENTREVISTADORA: Ela não teve o Mukondo que uma Sacerdotisa deve ter, não é meu pai? Por que os familiares não permitiram?

- Minha filha, quando ela kufou, eu peguei meu povo, todos preparados, com pano na cabeça, contra egum, conta de Nkosi no pescoço, tudo como manda o Candomblé e fui para a residência da filha dela. Quando nós chegamos lá, fomos recebidos pelo Tata Kivonda dela, seu genro Manoel Pinto assim: “Olhem! aqui morreu uma religiosa, não se trata aqui de Candomblé”.

Ela pertencia a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e a vestiram com as vestes da santa.

Depois eles venderam tudo, acabaram com tudo, tanto assim que os netos e bisnetos dela, todos hoje em dia têm educação evangélica. A filha não, continua , mas já está muito doente, não tem mais vontade própria.

35. ENTREVISTADORA: Meu pai nós não falamos de um assunto muito importante em nossa nação e em nosso terreiro, e que poucos podem fazer; não apenas por questões financeiras, pelo espaço, mas principalmente pelos fundamentos e pelo resguardo que a obrigação exige, que é a DERRUBADA DO BACAÇÁ.

- Eu faço na festa de Dandalunga, de 4 em 4 anos, quando eu derrubo um garrote para Gomgobira e uma novilha para Dandalunga.

Antes dos animais chegarem, nós preparamos os fundamentos em todo o terreiro e cumieira. As pessoas que trazem e que vão copar o bacaçá no tronco defronte da casa de Dandalunga, faz uma obrigação na frente da testa do garrote antes dele entrar, sacode ele com jinsaba para poder amansar e amarrar no tronco.

Todos ficam esperando no portão de entrada, com grãos de arroz, pétalas de rosas perfume etc... e aí cantamos:

Ele é indo do Xó lá no Tumbarazê
Côro: Tumbará zem zê
Tumbará zem zê
Ê uá zenzá

Depois na hora de copar: Tata Mona que ô izidê ô bacacê
Tata mona que ô izidê ô bacacê

36. ENTREVISTADORA: E depois sempre chove , não é meu pai?

- Todas as vezes que fazemos essa obrigação é debaixo de água, como você sabe. Sempre. Eu já derrubei pra mais de 20 e sempre foi assim, debaixo de muita chuva. Graças a Deus nunca tive nada, porque minha mãe me deu os fundamentos. Era para derrubar dentro do barracão, mas ela tirou, porque disse que ficava muito forte para os resguardos. Então ela fez ntoto em frente a casa de Dandalunga e lá é feito a vonda do bacaçá.

Depois rezamos 7 dias de Angorossi em frente a casa de Dandalunga

37. ENTREVISTADORA: è importante que se registre que uma hora depois não tem mais uma gota de menga no chão, as águas de mavula limpam tudo.

- É verdade, as águas limpam tudo. Depois a chuva pára e eu mando pintar o chão e quando chega a hora da festa ninguém diz que ali foi derrubado um garrote e uma novilha na frente da casa de Mamãe Dandá.

A primeira novilha que derrubamos aqui foi com a presença de minha mãe e ela mandou que desse tudo ao povo, não ficou nada aqui, a não ser o mutuê e os ixé. A carne do garrote de Gomgobira é que ficou para servir na festa pública a noite

38. ENTREVISTADORA: Meu pai eu não tenho palavras para agradecer a sua atenção, paciência e confiança em me prestar tantas declarações que com certeza ficarão guardadas no fundo do meu coração e que no futuro servirão de lição e de exemplo para todos os seus descendentes.

- O que eu estou lhe falando minha filha é a pura verdade. Onde tem verdade se puxa por ela, mentira tem a perna curta. Tudo isso que eu disse são verdades verdadeiras, colocadas com muito amor e muito carinho, para você em primeiro lugar, porque trabalhou para merecer minha confiança, e para seus irmãos. Quem quiser vir ver aqui, venha logo enquanto estou vivo e vai encontrar logo de frente o retrato de Mam´étu Kizunguirá para Deus e o mundo ver. Eu ainda mostro as cartas dela feitas para mim quando ela estava em Angra dos Reis.

39. ENTRVISTADORA: Eu quero que o Senhor saiba de antemão que além daquele forum, no qual coloquei esta entrevista vou colocá-la no forum Caminhos de Zambi.

MENSAGEM DE TAT´ÉTU PASSINHO,
ESPECIALMENTE PARA OS ADMINISTRADORES
E IRMÃOS PARTICIPANTES DO FORUM CAMINHOS DE ZAMBI:S

Eu Juraci Xavier Passinho, filho de Dandalunda Menso Kambainda Ouro da Samba, desejo a todos os meus irmãos em Nkisi, que ame os Minkisi como eu amo, respeitem amem e considerem eternamente seus mais velhos.

Eu não sou o dono da verdade, mas ensino o que aprendi e dou como certo. Os Inquice e as Inquiciane são as minhas testemunhas nessa caminhada, quem nos traz de pé e que nos dá amor.

Eu peço por todos vocês dizendo: Caiango, Capanzo, Kassuté Sambangola, Gogoropanzo; Napia napia Buchê buchê, Otassiano, Dandalunga Ouro da Samba Kalunga de março! Gongoromicene Dona Kalunga igomatomense.

FIM

Fiquem Paz
Dandarê





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